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Foto: Divulgação

Todos os dias me acordo pensando “é hoje!”.
- É hoje o que, criatura? – digo a mim mesmo.
- Não sei o que. Mas é hoje!
Como nasci em Vacaria, talvez tenha passado tanto frio que,
quando bebê, acordava tremendo e pensava: “É hoje que vai esquentar!”.
Na minha rua não havia garotos da minha idade. E pode ser
que, na solidão de outras crianças, me tenha acordado todas as manhãs,
quando menino, e dito: “É hoje que vai aparecer vizinho criança por aqui!”
Na puberdade se vê as diferenças entre você e os seus. E a
sociedade tem os mais e os menos, quem manda e quem é mandado, os que
possuem e os despossuídos. E pode ser que tenha naquele período sonhado com
uma vida diferente e me acordado, todos os dias, dizendo: “É hoje que nossa
vida muda!”.
Já adolescente, os conflitos de geração batiam à porta,
ninguém entendia você, os heróis de infância se desmanchavam, a tentação das
ruas estava logo ali, os pelos cresciam no rosto, pernas e pinto, posso ter
dormido noites e noites com esses conflitos e acordado todas as manhãs
dizendo: “É hoje que vou sair daqui”.
Pode ser que não seja nada disso. Pode ser que me acorde
todas as manhãs pensando “é hoje!” com base na religião. Fui criado entre
espíritas e espiritualistas, com todas as neuroses e felicidades dessas
teorias reencarnacionistas. Pode que, por discordar do que me diziam ou
temer a paranoia do que pregavam - espíritos andando por aí, gente que morre
e não se desliga da terra, essas coisas – eu tenha dormido aterrorizado
muitas noites e acordado muitas manhãs dizendo: “É hoje que mudo de
religião”. E talvez tenha sido essa a razão pela qual me batizei católico, a
meu próprio pedido e contrário-senso da família, aos 7 anos.
Pode ser que entre a infância e a puberdade eu tenha me
apaixonado violenta e equivocadamente por uma vizinha adulta, criando um
tipo de Édipo, e na angústia tenha recalcado o sentimento e me acordado
muitas vezes dizendo: “É hoje que mudo de paixão”.
O fato é que, por razões que desconheço, acordo todos os
dias dizendo a mim mesmo: “É hoje!”.
Pode ser que não saiba exatamente quem sou. Mas quem sabe?
Pode ser que não goste de ser 100% como sou. Mas quem
gosta?
Pode ser que deseje ser alguém melhor. Mas quem não deseja?
Essas dúvidas sempre bateram em minha cabeça como um
martelo num sino. E agora pouco acabei de reler o livro Xógum, do escritor
inglês James Clavel, e tive uma luz.
Fiquei encantado ao ler Xógum e saber que os zen-budistas
samurais acreditavam que, se morressem hoje, renasceriam em 14 dias. Essa
crença os fazia forte para se educar pelo caráter e melhoria de si mesmo
todos os dias, pois só uma morte honrada como samurai lhes daria o direito
de renascer novamente como samurai – o que era, para eles, a maior de todas
as honras.
Eles, os samurais zen-budistas, acreditavam numa segunda
chance, e por isso viviam e morriam com honra. E ao ler isso, me dei conta
que tenho vivido todos estes 54 anos baseado de certa forma nisso, na honra,
no respeito, na dedicação ao que faço e na humildade subserviente ao que
acredito que seja certo, correto e honrado. E pode ser que venha daí essa
minha mania de me acordar pensando “é hoje!”, sem saber exatamente o que
significa “ser hoje”.
No fundo, pode ser que eu esteja sempre atrás de uma
segunda chance.
E você?
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