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Desde que o seu pai era guri e provavelmente desde que o
bisavô dele era criança, é sempre na época da eleição que pobre tem a chance
de tirar algo de político. É a dita “mordida”. O candidato se apresenta para
concorrer e tem, sempre, um discurso maravilhoso: quer “trabalhar pelo
povo”.
O “povo”, porém, escaldado de tanta conversa fiada, sabe que
apesar desse “nobre sentimento” do candidato, ele, o povo, precisa
aproveitar. Afinal, são menos de três meses de campanha, e se ele não tira
agora, pensa o povo, não tira mais, porque depois que está dentro... foi!
As mordidas, então, são em temporada. E é mais curta que a
caça a perdiz ou marrecão -que aliás nem abre mais. Tem de ser rápido.
Escolher o candidato. E usando a arma do candidato - a promessa - promete
fazer, pelo candidato, aquilo que o candidato faz pelo povo: Promessa!
Promessa! E promessa!
Assim é que pobre em época de eleição vê crescer a família.
Meu Deus!!! Cada eleitor que chega no candidato “tem 15 votos” em casa, no
mínimo. E todos eles “serão teus” se tu me conseguir... e aí dá a mordida,
pedindo o que quer. Os candidatos sabem que levam mordida de tudo o que é
lado do bolso.
Ocorre que o candidato tem uma certa noção de que o eleitor
sabe qual a real razão para o sujeito chegar lá. E o candidato pensa que o
eleitor sabe que não é “tão nobre” assim o desejo dele de chegar ao cargo.
Então, o candidato se previne.
Nunca sai com nota grande no bolso, tem sempre nota de 2, no
máximo de 5 reais. Para ser “simpático”, anda sempre com dois maços de
cigarro para oferecer ao eleitor fumante - e um ele sempre deixa com o
eleitor, é claro. Os candidatos mais profissionais, têm, no carro, uma ou
duas muletas, três ou quatro bengalas, sapato masculino e feminino. Óculos
de leitura não pode faltar, pois olhando em quem nós brasileiros votamos,
candidato que distribuir óculos de grau vai ser visto como intelectual. Dá
até para mentir ao eleitor que se é “um grande leitor”. Candidato que se
preze, tem uma garrafa de pinga no veículo, para alimentar a conversa do
eleitor, que sob efeito etílico morderá menos e compreenderá o drama do
candidato.
A lista de pedidos é longa. A melhor que vi, fora os fogões à
lenha de seis boca que vi pedirem, lavadora de roupa, telha, tijolos e blá,
blá, blá..., foi um pedido feito ao Romeo Wolf, quando ele perdeu para o
Renato. Quem me apresentou o pedido foi o João Luiz Weber, que coordenava a
campanha do Romeo. O sujeito, bem conhecido aqui em Dois Irmãos, apresentou
uma lista. Ele tinha um terreno e, na lista, vinha das pedras de alicerce
até a marca do vazo do banheiro, por exemplo, tudo tim-tim por tim-tim
detalhado. Era a construção de uma casa completa. E, em troca, ele passaria
ao Romeo “todos” os 28 votos da família dele (ele, irmãos, pais, etc...).
O Romeo (que ingratidão!) não pagou esse voto. Deve ter pago
outros, mas não esse. O preço era demais. E o pior é que o voto (isso sim é
ingratidão!) era secreto. Mas o eleitor arriscou a mordida. Afinal, quem
não chora não mama...
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