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Anos atrás veio ao Rio Grande do Sul o senhor Dalai Lama, o
grande líder dos budistas. Por sorte - e porque tinha amizade com alguém que
os budistas ali de Três Coroas prezavam muito - acabei como “convidado”, e
não como jornalista, nos três dias em que o Dalai Lama ficou aqui no Estado.
Foi uma experiência inesquecível! E inesquecível por vários
aspectos.
Primeiro porque o Dalai Lama, que é o líder máximo dos
budistas no mundo, uma espécie de Papa, é sem dúvida alguém muito difícil de
se chegar perto. Afinal, como foragido dos invasores chineses que tomaram o
Tibete a ferro e fogo, matando monges e queimando monastérios, é raro
permitirem que alguém se aproxime dele sem ser, antes, profundamente
monitorado, pois pode ser um espião ou um assassino que, chegando perto
dele, o mate.
Em segundo lugar, porque o budismo, desde que Gautama Buda
fundou essa filosofia, é algo que cativa pelas suas concepções de vida,
entre elas a de pacifismo e, nestas, a melhor, a meu ver, que é a de que
toda ação negativa gera sofrimento. E o Dalai Lama, sendo o expoente
máximo desse pensamento, é, também, um homem admirável sob todos os
aspectos.
Conseguindo, então, privar naqueles três dias com o Dalai,
pude ver que suas atitudes de humildade e sabedoria são incríveis. Os
cumprimentos dele são sempre de forma respeitosa. E ele é um ouvinte atento
e interessado. É, também, uma pessoa que faz colocações sobre seu
pensamento, de forma consistente e firme, sem receio de que quem as ouve se
sinta ofendido.Nas várias vezes em que conversamos, naqueles três dias, lhe
perguntei sobre a questão do “tempo”.
Pode parecer infantil, mas sempre acreditei que o tempo não
existe. Fui, porém, ensinado, que o tempo tem ontem e amanhã. E o Dalai
Lama, confirmando o ensinamento de Buda, que é o mesmo de Confucio e tem
sido o mesmo de tantos outros filósofos que nos libertam a alma, acredita
que só existe o agora. Este momento. O já. E que ontem é uma ilusão assim
como amanhã.
Talvez por isso, penso que nós, ocidentais, pensadores ou
apenas vivedores (que é o que a maioria dos seres humanos é), nos
preocupamos muito com o que virá ou o que foi. Na verdade, e a Bíblia Cristã
não renega isso, nós só existimos agora. Neste momento. No instante em que
respiramos.
O resto, passado e futuro, é uma alienação ao que é e ao que
somos. Talvez tenha sido isso que Marx tenha chamado de “esquizofrenia da
religião”.
Cada dia conheço mais as pessoas, seus medos, suas
falsidades, a mesquinharia que move o seu pensamento. Posso até pensar que
são más, que criam situações ruins para os outros afim de se tornarem
felizes com elas próprias.
No entanto, cada dia mais, também, vejo que o ser humano tem
esse sofrimento temporal de se achar histórico, de crer que teve ontem e
terá amanhã, quando, na verdade, tudo que temos, tudo que somos e tudo que
podemos se resume ao agora. Cada um de nós que atrapalha o andar do outro,
deveria pensar que isso de onde queremos chegar não existe assim como não
existe isso de fugirmos do que já passou.
Tenho 51 anos, e quanto mais percebo a impermancência do ser,
tanto mais compreendo e deixo de odiar a ignorância, mesquinharia e idiotice
alheia.
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