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Todo Governo tem o povo que merece. As ruas de Buenos Aires
tomadas de centenas de milhares de manifestantes é algo que o Brasil nunca
verá. Já vimos isso, em 1985, na campanha das Diretas Já. Mas era
movimentação por eleição e disso qualquer pica-fumo entende. He, he, he...
O que se viu na Argentina foi manifestação por taxas de juros
mais baixas. E se você acompanhou na tevê e viu aquele 1 milhão de pessoas
batendo panela, é bom saber que esse protesto era da área urbana, ou seja,
da cidade, e contra o que a senhora Kirschner quer fazer contra o campo.
Seria de perguntar como é que esse mais de um milhão de
argentinos jovens, adultos e idosos vão às ruas reclamar. O que faz esse
povo ser tão mais capaz de perceber a desgraça em andamento do que o nosso?
A resposta está na educação.
Brasileiro goste ou não, o fato é que o argentino é mais bem
educado do que nós. Refiro-me à média de nós, não me refiro a Dois Irmãos,
especificamente, mas ao Brasil. Na média, o Brasil é um poço de ignorância
e semi-analfabetismo. É o IBGE quem diz, em suas estatísticas.
Na Argentina, o índice de educação é muito mais alto do que o
nosso. Enquanto o Brasil tem menos de 2% da população com graduação
universitária, na Argentina esse número sobe para quase 20. E a diferença
está aí. Uma população com mais laboratório intelectual, mais anos de banco
de escola, é, também, uma população mais consciente.
Se fosse para algum país fazer uma passeata para baixar
imposto que os governos cobram, esse país deveria ser o Brasil. Mas o
brasileiro médio não entende o que é taxa de imposto.
O governo sabe muito bem disso. Tanto que o delegado que por
quatro anos monitorou essa cafajestada de gravata do Opportunity e seus
três principais assessores foram afastados para não incriminar mais os
Dantas, os Najas e outros da gangue, e o brasileiro aceita, pacificamente,
esse protecionismo ignóbil aos que corrompem as instituições. Na Argentina
isso seria motivo para quebra-quebra generalizado. Mas aqui isso é
amortecido pelas novelas, pela piranha gimenez ou pelos jornais nacionais,
mas sobretudo porque nosso povo não tem como compreender a razão desse
estado de coisas que vivemos.
Nossa população está anestesiada intelectualmente pela
ignorância em que vive. Daí a elite escolher sempre o que tem de pior para
representá-la. Espertos precisam de marionetes para sobreviver. Coisa que a
Argentina não aceita.
Alguns amigos meus se comprazem quando dizem que Buenos Aires
está decadente.
É como se Buenos Aires virar o que virou, por exemplo, o Rio
de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre ou Novo Hamburgo, fosse motivo de
alegria. Afirmo que é motivo de desgraça. Enquanto Buenos Aires se manter
elegante e culta, alguns de nós, que se beneficiam da ignorância da
população, terão de ter vergonha quando, fora do Brasil, forem “obrigados” a
dizer que moram neste país.
Não reconheço divisas nem fronteiras, mas sou obrigado a
concordar com quem diz que o Brasil, a seguir como vai, nem em 100 anos
mostrará uma saída gloriosa para seus filhos.
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