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Alan Caldas

Jornalista

Fomos filhos de heróis e não sabíamos

 

As famílias têm no máximo 2 filhos. As com  três são raras. E mais que isso vira celebridade. O Rio Grande do Sul apenas repõe o número de pessoas que morre. E não se iluda com a Grande Porto Alegre. Para que tenhamos aqui o que temos de população, regiões aqui no Estado viraram latifúndios, pois quem morava lá vendeu os poucos hectares que tinha e veio morar por aqui. As famílias não foram sempre pequenas. Quem tem 50 anos ou perto disso, normalmente tem 6 ou 7 irmãos. Até 40 anos atrás, não era raro a família ter 11 ou 12 filhos. O bispo Edir Macedo, por exemplo, da Igreja Universal, acredite ou não tem 29 irmãos. E todos da mesma mãe.

 

É que não havia método contraceptivo. A "pílula" só chegou ao Brasil no início dos anos 70. Havia tentativas, antes disso, mas todos têm lembranças cruéis da talidomida e das mutações que causou em filhos cujas mães utilizaram esse fármaco.

 

Família grande era regra. Meu pai teve 8 fi­lhos e ainda adotou uma menina. Nossa família tinha onze pessoas, e penso como dar casa, roupa, sapato, alimento, livros escolares, luz, água, etc. a tantas pessoas. Se o pai é colono o alimento vem da terra. Mas nós éramos 100% urbanos, e o sustento vinha só do salário do pai. Era um a sustentar onze. E dava. Não só para nós, mas para toda vizinhança, que também era de famílias enormes e apenas o pai trabalhava com salário. As mães costuravam a roupa da família e uma horta todos tinham. Mas o grosso vinha do salário. E todos cresciam sadios. E na vizinhança nunca morreu ninguém por inanição ou histórias escabrosas, como as que se escuta sobre o Nordeste.

 

E um detalhe: essa mordomia de Posto de Saúde, médico, dentista e remédio grátis não havia. A saúde pública não existia. E se precisava de saúde, inclusive parteira, tinha de ser pago com o salário do pai.Como os pais conseguiam isso? Não sei. Nem imagino. Lá em casa 1 sustentava 11. E você já viu 11 bocas comendo três vezes por dia? Já viu 11 corpos vestindo? Calçando? Indo à escola? Querendo presentinho? Jesus Cristo! Olha, leitor, não é só o meu pai e minha mãe, viu? São todos os pais e mães daquela geração. Eram heróis! Mães e pais de hoje têm uma saúde pública incrivelmente sofisticada e grátis. Têm bolsa família. Têm seguro-desemprego. Têm uma rede de solidariedade e apoio. E mesmo assim, ainda hoje, ser pai e mãe é ser herói.

 

Mas herói, mesmo, sem sombra de dúvida, eram os pais daquela geração onde ninguém tinha “dereitos”, só obrigações. Fomos filhos de heróis. E não sabíamos.

 

 E-MAIL DO COLUNISTA: colunistacaldas@terra.com.br

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