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Hoje cedo eu a Clari Seger e o Flávio Müller lembramos que
nossa geração não teve direitos. Só deveres. E ao falar nisso recordei que
me impressionava ao ir ao Posto de Saúde e lá ter uma dentista que me
atendia de graça, quando eu tinha 9 ou 10 anos.
“De graça?”, perguntei todo desconfiado para a minha mãe.
“De graça”, disse ela.
Não me convenci. Saí pensando que a dentista era um anjo a
serviço de Deus. Só podia. De graça? Hã, duvido! É Deus! Não me sentia bem
em usar serviço gratuito. Ficava encabulado. Era estranho alguém não cobrar
pelo serviço.
E para disfarçar o mal-estar de usar o serviço da dentista
sem pagar, levava flores para ela. E ao sair dizia “obrigado”, de
mão-pegada. Descobri que quanto mais perfumadas as flores, menos doía a
anestesia. E quanto mais firme o aperto daquela minha mãozinha de 8 ou 9
anos, menor a má-sensação da broca em meus dentes.
Nunca pensei ter “direitos”. Só tenho direito ao que
conquisto. Por isso tentava conquistar a dentista com flores. E o aperto
daquela mão infantil era o pagamento humano ao atendimento dela e pelo qual
eu não pagava em dinheiro.
Olhando para trás, vejo que nossa geração sempre foi grata.
Se não podíamos pagar com dinheiro o que a cidade nos dava, pagávamos com
respeito e delicadeza aos profissionais.
Minha dentista de infância hoje tem mais de 80 anos. E meses
atrás a vi em Porto Alegre. Lembramos um do outro. E emocionada e feliz ela
relembrou as flores que eu lhe dava por gratidão ao serviço gratuito a mim
prestado.
Educação vem de berço, ela disse. E a sociedade é aquilo que
a educação em casa for. Crescemos sendo ensinados que a pessoa não deve
acreditar que merece ter da sociedade aquilo que ela pessoalmente não
consegue conquistar.
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