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E a manhã da véspera de Feriado Farroupilha amanheceu cinza,
sem quase cor, mas sim, um dia em farrapos.
Não fui professora deste garoto de 16 anos, mas ele era aluno
de muitos outros professores e hoje seu assassinato lembra o quanto ainda
estamos aprendendo com as agruras da vida. E me mostra o quanto ainda não
aprendi do que é o sofrimento, o que é o fundo mais fundo de um grande poço.
A mãe de Lenon não esperará mais sua volta da escola, de mais
um jogo do campeonato da várzea, de mais uma competição de atletismo, de
mais uma invernada, de mais nada.
Ele não acordará mais em nenhuma manhã, não esquentará sua
cama com seu corpo forte, ao deitar ao final de um dia, com a sensação de
missão cumprida. Na escola, no futebol, no treino de atletismo, na vida, na
família.
O pai de Lenon tem agora a lembrança do futuro, do presente
ultrajado, da juventude que não findou, pois a ausência precoce do
investimento maior da sua vida lhe foi roubado junto com sua vida. Seu filho
não participará mais daquela viagem a qual ele se preparava, onde um dia
conheceria as folhas secas dos plátanos do Canadá. Ele viajou para outro
rumo e sem passagem marcada. Somente bilhete de ida, sem previsão alguma de
volta. Ele simplesmente repentinamente partiu, sem tempo de se despedir. Não
se despediu da mãe, do pai, dos parentes, dos amigos, colegas de escola,
professores, de toda a comunidade que um dia testemunhou sua infância,
adolescência e quase juventude.
Os pais e professores, quando os filhos e alunos saem para a
rua, vão a festas, trilham os trajetos de casa para a escola, da escola para
casa, ouvem incansáveis recomendações: te cuida, olha ao teu redor, não anda
sozinho por lugares estranhos, volta logo, não demora, quem é esse cara,
essa guria no celular... Mas, quando nossos filhos e alunos estão dentro de
suas casas, da sua escola, sentimos uma redoma, uma proteção. Debaixo de
nossas asas eles são intocáveis. Duro e duplo engano. E quando invadem nossa
casa, tomam nossas coisas e roubam a vida de nossos filhos... e quando Lenon
estava no sofá assistindo televisão, não podia imaginar que o último
capítulo de uma novela da vida real terminava por aí. Não teve tempo para
nada. Foi rápido. Foi cruel e fatal.
Levei alguns dias para escrever. Conhecia o pai, o filho. De
longe. Mas todos que os conheciam foram incansáveis em dizer o quanto eles
são especiais, lutadores, positivos, trabalhadores, investidores, grandes de
alma. Lá no acampamento farroupilha, um conhecido da família e morador do
mesmo bairro afirma: um tiro, um tiro acabou com toda uma família. Destruiu
sonhos. Chocou gente grande, gente pequena. Sacudiu a cidade. De repente
todos souberam quem foi Lenon e não o que ele poderia um dia ser.
A ausência, a perda, a tristeza, os olhos marejados dos
adolescentes que perderam seu amigo, tudo é pouco ou nada para consolar este
pai, esta mãe. Fica a decepção com a insegurança pública, o medo de que isto
vai se repetir, a vergonha de não ter o que dizer para acalmar a alma, de
todos que sofrem com a violência. Os versos de “Veterano” e “Desgarrados”
marcam o tempo de um garoto, que em São Leopoldo não viu seus sonhos se
realizarem: “Está findando o meu tempo , a tarde encerra mais cedo, meu
mundo ficou pequeno e eu sou menor do que penso (...) sou menino de alma
leve voando sobre o pelego (...) olhos abertos, o longe é perto o que vale é
o sonho (...) mas o que foi nunca mais será...”
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