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Angela Dillenburg

Jornalista & Professora

Era uma vez um garoto chamado Lenon

 

E a manhã da véspera de Feriado Farroupilha amanheceu cinza, sem quase cor, mas sim, um dia em farrapos.

 

Não fui professora deste garoto de 16 anos, mas ele era aluno de muitos outros professores e hoje seu assassinato lembra o quanto ainda estamos aprendendo com as agruras da vida. E me mostra o quanto ainda não aprendi do que é o sofrimento, o que é o fundo mais fundo de um grande poço.

 

A mãe de Lenon não esperará mais sua volta da escola, de mais um jogo do campeonato da várzea, de mais uma competição de atletismo, de mais uma invernada, de mais nada.

 

Ele não acordará mais em nenhuma manhã, não esquentará sua cama com seu corpo forte, ao deitar ao final de um dia, com a sensação de missão cumprida. Na escola, no futebol, no treino de atletismo, na vida, na família.

 

O pai de Lenon tem agora a lembrança do futuro, do presente ultrajado, da juventude que não findou, pois a ausência precoce do investimento maior da sua vida lhe foi roubado junto com sua vida. Seu filho não participará mais daquela viagem a qual ele se preparava, onde um dia conheceria as folhas secas dos plátanos do Canadá. Ele viajou para outro rumo e sem passagem marcada. Somente bilhete de ida, sem previsão alguma de volta. Ele simplesmente repentinamente partiu, sem tempo de se despedir. Não se despediu da mãe, do pai, dos parentes, dos amigos, colegas de escola, professores, de toda a comunidade que um dia testemunhou sua infância, adolescência e quase juventude.

 

Os pais e professores, quando os filhos e alunos saem para a rua, vão a festas, trilham os trajetos de casa para a escola, da escola para casa, ouvem incansáveis recomendações: te cuida, olha ao teu redor, não anda sozinho por lugares estranhos, volta logo, não demora, quem é esse cara, essa guria no celular... Mas, quando nossos filhos e alunos estão dentro de suas casas,  da sua escola, sentimos uma redoma, uma proteção. Debaixo de nossas asas eles são intocáveis. Duro e duplo engano. E quando invadem nossa casa, tomam nossas coisas e roubam a vida de nossos filhos... e quando Lenon estava no sofá assistindo televisão, não podia imaginar que o último capítulo de uma novela da vida real terminava por aí. Não teve tempo para nada. Foi rápido. Foi cruel e fatal.

 

Levei alguns dias para escrever. Conhecia o pai, o filho. De longe. Mas todos que os conheciam foram incansáveis em dizer o quanto eles são especiais, lutadores, positivos, trabalhadores, investidores, grandes de alma. Lá no acampamento farroupilha, um conhecido da família e morador do mesmo bairro afirma: um tiro, um tiro acabou com toda uma família. Destruiu sonhos. Chocou gente grande, gente pequena. Sacudiu a cidade. De repente todos souberam quem foi Lenon e não o que ele poderia um dia ser.

 

A ausência, a perda, a tristeza, os olhos marejados dos adolescentes que perderam seu amigo, tudo é pouco ou nada para consolar este pai, esta mãe. Fica a decepção com a insegurança pública, o medo de que isto vai se repetir, a vergonha de não ter o que dizer para acalmar a alma, de todos que sofrem com a violência. Os versos de “Veterano” e “Desgarrados” marcam o tempo de um garoto, que em São Leopoldo não viu seus sonhos se realizarem: “Está findando o meu tempo , a tarde encerra mais cedo, meu mundo ficou pequeno e eu sou menor do que penso (...) sou menino de alma leve voando sobre o pelego (...) olhos abertos, o longe é perto o que vale é o sonho (...) mas o que foi nunca mais será...”

 

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SulMix - Angela Dillenburg... Jornalista & Professora... Leciona Informática no colégio Sinodal... Música no Centro de Educação Smiky... Voluntária no projeto de música de um grupo de cantores infanto-juvenis...

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