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Na semana que passou a novela Páginas da Vida, de Manoel
Carlos exibiu seus últimos capítulos e mais uma vez mexeu com a rotina dos
brasileiros mesclando a ficção e a realidade. De um lado mostrando e
escancarando preconceitos, expondo a questão do negro, dos portadores de
necessidades especiais, dos portadores do HIV, a bulimia entre outros temas
polêmicos. Do outro lado, abordando a questão da família brasileira em
questionamento. Mérito pela coragem na abordagem dos temas e os depoimentos
reais de cidadãos brasileiros, no final de cada capítulo.
Desde o final do ano passado tenho acompanhado em outro canal
a novela Vidas Opostas, que aborda a vida da favela enquanto comunidade e
enquanto covil de traficantes. Aborda a polícia que protege o cidadão e uma
polícia que protege a si mesma com corrupção, aliciamento de informantes,
para não citar cenas mais chocantes, como a de um delegado corrupto se
drogando ao som de uma linda ópera, relembrando suas atrocidades e amores
como detentor do poder.
Já comentei as cenas com familiares, amigos e colegas de
trabalho, e me surpreendo ao perceber que poucas pessoas do meu convívio têm
acompanhado o que vai pelo canal aberto da nossa tv brasileira.
É impressionante que depois das notícias diárias de balas
perdidas, de confronto entre policiais e traficantes, todo mundo se desliga
do que uma significativa fatia do povo brasileiro tem assistido no recôndito
do seu lar.
Produz-se verdadeiras obras-primas da dramaturgia.
Nos diálogos das diferentes novelas, seja na conversa do
traficante no morro, do policial na delegacia, dos adolescentes da classe
média, a expressão “tá ligado?” é usada pelo menos em 90% de qualquer frase.
Peça para um jovem te contar um filme que acabou de assistir.
E ele começa contando e ao final da primeira frase, o “tá ligado” é
inevitável.
Mas é interessante que lá pelas tantas a expressão se repete
na deixa da frase, e é como se o interlocutor te dissesse, “tá ouvindo o que
eu tô falando?” Será que a gente se liga, se pluga, se conecta no que está
ouvindo?
Na verdade, o “tá ligado” é uma gíria desta geração e as
“mina e os mano” são as gurias e os guris que a gente conhece. Te liga,
mano. Está virando uma linguagem universal. Ou seria nacional...
Será que estamos todos ligados, de verdade, sintonizados no
que estamos assistindo na tv, na ficção, no mundo real ou estamos
pseudo-ligados ou desligados, por estarmos automaticamente apertando o botão
do controle-remoto, brincando de on e off, o tempo inteiro, de acordo com o
que me atinge ou não.
Será que eu tô ligada que a menina da semana passada atingida
por uma bala em frente a um banco ficou paraplégica e que hoje no tiroteio
de uma favela uma garota morreu? Será que eu tenho noção que ao abrir as
páginas do jornal local eu sempre vou ler e constatar que algum jovem não
falará mais “tá ligado”, porque hoje ele não amanheceu para conversar. Seu
prazo de validade terminou ontem numa briga na frente de casa...
Nos últimos tempos, a cada novela, a cada notícia de jornal,
a cada fato ocorrido no meu prédio, na minha rua, tento me ligar mais,
correndo o risco de levar um choque tal é a condução de força e energia. Mas
será que estamos mesmo ligados no que está acontecendo? Quem sabe seja por
isso que a cada frase, surja o “tá ligado”. Estamos desligados demais para
atitudes e ligados demais na overdose das notícias diárias. Ligar-se ou não
ligar-se eis a questão...
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