|
Sempre gostei das pessoas que referem-se nas suas falas a
expressão “doses homeopáticas”. Ocorre que ultimamente tenho escrito
pouco... a começar por esta coluna. Parece que a apelação da mídia, me tirou
as palavras sobre um documento em branco do Word. Que coisa... fui
atropelada por dois fenômenos: a síndrome da falta de tempo e a preguiça pós
horário de trabalho.
Certa vez criei uma frase que usava constantemente: “Não
consigo ser pouco”...
Sendo portanto “muito” corri o risco de me tornar vários
poucos. Pouco tempo, pouco ânimo, pouco sonho, pouco de tudo. Epa, pouco
sonho?
O segredo dos vários poucos é dosar bem o que se pretende.
Não quero ter a obrigação de jorrar palavras, mas quero ter o compromisso de
falar coisas boas, em meio aos tiroteios assassinos do EUA, em meio aos
grandões presos na história dos bingos. Aí surgem sempre belos exemplos,
belos e-mails, belos sorrisos de criança que me estimulam a seguir em
frente...
Recebi um destes e-mails bonitos que fala sobre esta história
de falta de tempo. Era sobre um amigo que recebe um telefonema sobre o
acidente e morte do seu grande amigo. Nos últimos tempos havia se tornado um
amigo ausente, por falta de tempo. E o paradoxal foi o fato de que para o
velório e enterro do amigo, teve que arrumar tempo de qualquer
jeito...Arrumar tempo para amigo morto é mais que um puxão de orelhas. É a
triste realidade que tem assolado a vida de todos nós.
Portanto me dei o tempo de olhar aquele filme que queria
assistir fazia tempo. De escutar música erudita enquanto escrevo, de rir das
piadas dos gremistas sobre os colorados durante esta semana...
Mas tudo deve acontecer devagarinho, aos poucos. Saborear
tranqüilamente coisas que são engolidas rápidas demais. Tenho lido artigos
de uma revista aos poucos. Tenho lido capítulos de diferentes livros ao
mesmo tempo, ao perceber que não conseguia mais ler todo um livro por
inteiro para depois começar outro...
A única coisa homeopática que não estou conseguindo fazer é
em relação aos sentimentos. Tenho muitas vontades de chutar o balde. Muitos
motivos de virar a mesa. Muita justificativa para atitudes impetuosas que às
vezes chocam quem me conhece.
Quem assistiu ao filme “Um dia de fúria”, entenderá um pouco
melhor a que estou me referindo. Um pacato cidadão americano que se
transforma num assassino ao abandonar seu carro no meu de um engarrafamento,
irritado com o trânsito. Que vontade de xingar aquele louco que cortou tua
frente no trânsito e que vai te dizer piadinhas se fores mulher e ainda
completará a ofensa se fores loira. Vontade de dizer na cara daquele teu
colega que sempre vem com uma desculpa para justificar uma coisa que ele
devia ter feito, mas não fez. E por isto te prejudicou. Vontade de
patrocinar um atentado em algumas emissoras de tv que teimam em colocar no
ar verdadeiros tratados de ignorância da realidade das pessoas. Vontade de
pegar pelo pescoço aquela mãe que arrasta a criança pela mão, que não
consegue acompanhar seus passos, porque a pressa que ela tem, a infância não
tem.
Calma...aos poucos, lembra? Que aos poucos eu volte a
escrever aos muitos que ainda param para ler, pensar. E repensar, reler.
Devagar e sempre, já diziam os mais velhos. E como com um conta-gotas, dosar
meu humor. Pingos de bom-humor, pitadas de verdades. Pouco antídoto em
frascos de atitudes combaterão os venenos exalados de muitas palavras mal
(ditas)! Pouco dito e muito feito.
|