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Ilustrações: João Soares

Tive experiências no ano que passou com jovens que passaram
por diferentes situações de dependência química, o que me desvendou um novo
mundo nesta loucura desvairada do uso de drogas, especialmente do crack.
Aprendi, lendo, participando de encontros e palestras, o
que ainda não sabia totalmente sobre o assunto, muito antes do secretário de
saúde do estado decretar o crack como uma epidemia que assola o estado,
muita gente já sabia, e muitos lutam contra a doença. Ou você tem alguma
dúvida de que a dependência química é uma doença...
Diante disso, uma nova luta, tão cruel quanto os conflitos
de Gaza, ou as balas perdidas em qualquer periferia, nos coloca frente ao
novo desafio. Não somos ainda preparados o bastante, sobre qual munição usar
no combate. Há ações públicas e privadas elogiáveis, porém, há um abismo, um
buraco negro entre estas ações que impedem que a batalha contra a droga seja
realmente uma guerra, e não apenas mais uma ação isolada.
Se a escola prepara-se para que seus alunos tenham
qualidade de vida através de projetos de valorização à vida, ou ainda
projetos de inclusão tirando a gurizada da rua e colocando frente ao teatro,
às artes, ao esporte, ao computador, ainda assim, há situações que escola e
família ainda estão na janela, na porta da história. Pois se por um lado
queremos e devemos como qualquer cidadão de bem falar em prevenção, o que
fazer com quem já é dependente ou quem já chegou no fundo do poço e
permanece vivo. E sua família, como resgatar a alma desta célula, como
acompanhar a recuperação, como lidar com a recaída, como viver com a sombra
da doença-droga... Tal como um diabetes, esta dependência torna-se crônica.
É para o resto da vida, podendo estar melhor ou pior. Mas para poder estar
“cada vez melhor” é preciso que algumas coisas sejam ditas e entendidas.
Mas voltando ao crack. Oito vezes mais potente do que a
cocaína. Presume-se que o uso por três vezes já vicia e por viciar de forma
mais rápida e por ser uma droga de baixo custo, voltar-se totalmente para
droga é deixar de viver. Agressividade, angústia, dificuldade de raciocínio,
não conseguir controlar os impulsos fazem do dependente uma pessoa que
dificilmente respeitará regras estabelecidas ou encontrará um rumo para sua
vida. O crack, segundo o secretário da saúde, Osmar Terra, altera uma área
do cérebro, mudando a vontade da pessoa. Para ter a droga de qualquer jeito,
a pessoa passa a desconsiderar outras coisas. Para mim, esta é a parte mais
triste desta droga: a escravidão. Prender a pessoa de tal forma, que ela não
consegue ter vontade própria. A droga que manda, a dependência consome... E
a vida se vai.

Tive contato com uma comunidade terapêutica, para a
recuperação de dependentes químicos, conhecida como “fazenda”, em que o
tripé oração, disciplina e trabalho, são as formas encontradas, de forma bem
organizada para receber o jovem e tantos não tão jovens, consumidos pelo
crack. Perder peso, namoradas, esposas, amizades, emprego é a rotina do
usuário desta droga. E mesmo fazendo um acompanhamento terapêutico, onde o
tratamento diferenciado, sem remédios é direto e decisivo, as recaídas são
uma constante. A sobriedade é como se fosse uma pequena formiga frente ao
elefante da pedra.
A FAMÍLIA (com letra maiúscula) é aliada fiel para a
recuperação. A mãe, o irmão, o pai, são co-dependentes, na dependência. É
difícil não fazer parte da doença. Afinal, as culpas são muitas. Pelos nãos
não-ditos, por ter facilitado esta ou aquela situação, por ter mentido
pequenas inverdades, por ter desculpado inocentes brincadeiras, que mais
tarde se tornaram “sins” para droga, dificuldades quase impossíveis de
serem ultrapassadas. O ambiente familiar desestruturado combinado com os
atrativos das ruas e das festinhas que começam com álcool e terminam com
extasy, empurram nossos filhos para o monstro que no início não mostra sua
cara, seu gosto, seu cheiro. Em segundos este mesmo monstro chamado droga
mostra cara e dentes, um gosto atraente e um cheiro de perfume inebriante,
que chega ao cérebro com jeitinho de “quero mais” e leva nossos filhos e
amigos ao famoso fundo de poço.
Gente bem educada acaba roubando pequenas ou megacoisas
para compensar a fissura. Outros marginalizados nem tão bem educados fazem o
mesmo e todos “vão ao mundo”. Neste mundo todos ficam iguais. Os filhinhos
de papai (os playboyzinhos), os filhos de ninguém, se tornam uma grande
família. E consomem avidamente a droga que lhes dá o prazer que escraviza.
Sempre mais e mais, na busca desenfreada da recompensa para algo que falta e
não se sabe o quê.
50 mil dependentes no estado. É epidemia, dizem as
autoridades. Há de se prevenir, de se tratar. Há de se recuperar tudo o que
foi perdido: o tempo, o peso, o emprego, a família, a vida. A busca de si
mesmo, da fé. Isto não é nada fácil. Se manter “limpo” supõe boas
companhias, trabalho para ocupar corpo e mente, reflexões e meditações para
reforçar a espiritualidade, e muita, muita disciplina.
Estamos sendo convidados para lutarmos pela independência
química. Interna, intensa, intrépida, invencível. Incrível, eu diria. Pois
os verdadeiros heróis são aqueles que sobrevivem a droga. São aqueles que
antes de sucumbirem rebelaram-se a ela, procuraram uma saída. Nesta hora de
epidemia, somos um exército a combater esta famigerada...
E lendo sobre nosso papel frente à dependência química, os
filhos de alguém e os filhos de ninguém precisam sempre, de muito amor.
Precisamos na recuperação, dar amor no mesmo nível de importância da
exigência, da disciplina. Esta é a saída: não aceitar o que é feito de
errado, mas amar a pessoa, na busca constante e contínua da recuperação.
Acreditando nas potencialidades, voltagens e milhagens de cada um, para
ficar “limpo”, “de cara”, para sempre. Independer-se da droga.
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