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Angela Dillenburg

Jornalista & Professora

Os (in)Dependentes químicos

Ilustrações: João Soares

Tive experiências no ano que passou com jovens que passaram por diferentes situações de dependência química, o que me desvendou um novo mundo nesta loucura desvairada do uso de drogas, especialmente do crack.

Aprendi, lendo, participando de encontros e palestras, o que ainda não sabia totalmente sobre o assunto, muito antes do secretário de saúde do estado decretar o crack como uma epidemia que assola o estado, muita gente já sabia, e muitos lutam contra a doença. Ou você tem alguma dúvida de que a dependência química é uma doença...

Diante disso, uma nova luta, tão cruel quanto os conflitos de Gaza, ou as balas perdidas em qualquer periferia, nos coloca frente ao novo desafio. Não somos ainda preparados o bastante, sobre qual munição usar no combate. Há ações públicas e privadas elogiáveis, porém, há um abismo, um buraco negro entre estas ações que impedem que a batalha contra a droga seja realmente uma guerra, e não apenas mais uma ação isolada.

Se a escola prepara-se para que seus alunos tenham qualidade de vida através de projetos de valorização à vida, ou ainda projetos de inclusão tirando a gurizada da rua e colocando frente ao teatro, às artes, ao esporte, ao computador, ainda assim, há situações que escola e família ainda estão na janela, na porta da história. Pois se por um lado queremos e devemos como qualquer cidadão de bem falar em prevenção, o que fazer com quem já é dependente ou quem já chegou no fundo do poço e permanece vivo. E sua família, como resgatar a alma desta célula, como acompanhar a recuperação, como lidar com a recaída, como viver com a sombra da doença-droga... Tal como um diabetes, esta dependência torna-se crônica. É  para o resto da vida, podendo estar melhor ou pior. Mas para poder estar “cada vez melhor” é preciso que algumas coisas sejam ditas e entendidas.

Mas voltando ao crack. Oito vezes mais potente do que a cocaína. Presume-se que o uso por três vezes já vicia e por viciar de forma mais rápida e por ser uma droga de baixo custo, voltar-se totalmente para droga é deixar de viver. Agressividade, angústia, dificuldade de raciocínio, não conseguir controlar os impulsos fazem do dependente uma pessoa que dificilmente respeitará regras estabelecidas ou encontrará um rumo para sua vida. O crack, segundo o secretário da saúde, Osmar Terra, altera uma área do cérebro, mudando a vontade da pessoa. Para ter a droga de qualquer jeito, a pessoa passa a desconsiderar outras coisas. Para mim, esta é a parte mais triste desta droga: a escravidão. Prender a pessoa de tal forma, que ela não consegue ter vontade própria. A droga que manda, a dependência consome... E a vida se vai.

 

 

Tive contato com uma comunidade terapêutica, para a recuperação de dependentes químicos, conhecida como “fazenda”, em que o tripé oração, disciplina e trabalho, são as formas encontradas, de forma bem organizada para receber o jovem e tantos não tão jovens, consumidos pelo crack. Perder peso, namoradas, esposas, amizades, emprego é a rotina do usuário desta droga. E mesmo fazendo um acompanhamento terapêutico, onde o tratamento diferenciado, sem remédios é direto e decisivo, as recaídas são uma constante. A sobriedade é como se fosse uma pequena formiga frente ao elefante da pedra.

A FAMÍLIA (com letra maiúscula) é aliada fiel para a recuperação. A mãe, o irmão, o pai, são co-dependentes, na dependência. É difícil não fazer parte da doença. Afinal, as culpas são muitas. Pelos nãos não-ditos, por ter facilitado esta ou aquela situação, por ter mentido pequenas inverdades, por ter desculpado inocentes brincadeiras, que mais tarde se tornaram “sins” para  droga, dificuldades quase impossíveis de serem ultrapassadas. O ambiente familiar desestruturado combinado com os atrativos das ruas e das festinhas que começam com álcool e terminam com extasy, empurram nossos filhos para o monstro que no início não mostra sua cara, seu gosto, seu cheiro. Em segundos este mesmo monstro chamado droga mostra cara e dentes, um gosto atraente e um cheiro de perfume inebriante, que chega ao cérebro com jeitinho de “quero mais” e leva nossos filhos e amigos ao famoso fundo de poço.

Gente bem educada acaba roubando pequenas ou megacoisas para compensar a fissura. Outros marginalizados nem tão bem educados fazem o mesmo e todos “vão ao mundo”. Neste mundo todos ficam iguais. Os filhinhos de papai (os playboyzinhos), os filhos de ninguém, se tornam uma grande família. E consomem avidamente a droga que lhes dá o prazer que escraviza. Sempre mais e mais, na busca desenfreada da recompensa para algo que falta e não se sabe o quê.

50 mil dependentes no estado. É epidemia, dizem as autoridades. Há de se prevenir, de se tratar. Há de se recuperar tudo o que foi perdido: o tempo, o peso, o emprego, a família, a vida. A busca de si mesmo, da fé. Isto não é nada fácil. Se manter “limpo” supõe boas companhias, trabalho para ocupar corpo e mente, reflexões e meditações para reforçar a espiritualidade, e muita, muita disciplina.

Estamos sendo convidados para lutarmos pela independência química. Interna, intensa, intrépida, invencível. Incrível, eu diria. Pois os verdadeiros heróis são aqueles que sobrevivem a droga. São aqueles que antes de sucumbirem rebelaram-se a ela, procuraram uma saída. Nesta hora de epidemia, somos um exército a combater esta famigerada...

E lendo sobre nosso papel frente à dependência química, os filhos de alguém e os filhos de ninguém precisam sempre, de muito amor. Precisamos na recuperação, dar amor no mesmo nível de importância da exigência, da disciplina. Esta é a saída: não aceitar o que é feito de errado, mas amar a pessoa, na busca constante e contínua da recuperação. Acreditando nas potencialidades, voltagens e milhagens de cada um, para ficar “limpo”, “de cara”, para sempre. Independer-se da droga.

 

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SulMix - Angela Dillenburg... Jornalista & Professora... Leciona Informática no colégio Sinodal... Música no Centro de Educação Smiky... Voluntária no projeto de música de um grupo de cantores infanto-juvenis...

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