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Ilustrações: João Soares

Sou uma das privilegiadas que conseguiu permanecer por
muitos dias contínuos no litoral norte. No Imbé, por mais de quatro décadas
sou “veranista”, termo interessante para identificar quem apenas freqüenta,
um lugar de acordo com a estação.
Tenho costumes típicos de migrante temporária: caminhadas
no calçadão a beira-mar, passeios na minha bicicleta nova, idas esporádicas
ao mar, sesta básica na divisão do dia, um sorvete, um crepe, um queijo
coalho na brasa, uma olhada nas coisas vendidas pelos ambulantes. Ah, e ler
o VS diariamente.
Já fui mais assídua nos meus passeios ao Braço Morto, resto
de um lago, que tem uns caminhozinhos entre patos e outras aves. Já andei
bastante de dindinho e já fui mais ao Centro de Tramandaí. E já passou a
vontade de rastrear todas as lojas 1,99 das imediações...

Sou uma veranista quase hightech. Um pouco falsificada,
pois trouxe um notebook sem banda larga móvel, o que me fez vir na lanhouse
para atualizar e-mail e dar uma espiadinha em alguns sites. E enviar este
texto.
De alguns hábitos urbanos consegui me licenciar. Estou
andando de bicicleta, e a um mês dispensei o carro. Acessei a Internet por
duas vezes, sendo que na primeira vez eu tinha mais de 600 e-mail. Ufa,
muito para ler, muito a deletar.
Tempos atrás comia o crepe suzette,(aquelas trouxinhas de
massa com recheios diversos). Hoje é o crepe no palito (suíço), mesmo
(triplo, para não ficar nenhuma vontade de quero mais...) Nos outros tempos,
churros eram somente uruguaios, (agora tem uma vizinha que tem a tenda).
Trocaram o ambulante de cachorro-quente, para um buffet com
mil e uma opções de recheio, e o “picolezeiro” agora empurra um
carrinho-freezer, pela areia e imediações. Força física em tempos hightech.

O que me deixa infeliz é que não consigo me acostumar com o
“tungtung” dos sons dos carros. Os mais diversos estilos de música,
perfilados um ao lado do outro ou sacudindo a minha casa com os tungtung dos
próprios cohabitantes. Mas, uma cena me chamou por demais a atenção, no
final de domingo. Na beira da praia algumas tribos reuniram-se em torno do
som do seu carro, e o lugar onde estavam não tinha muitos moradores. Numa
casa, havia um senhor brincando com seus netinhos e família. E um dos
garotos da turma, foi até o outro lado da rua e perguntou ao senhor se o
volume do som estava adequado, atrapalhando etc. Gentilmente o senhor disse
que estava bom, e o guri voltou dizendo para a galera que podiam continuar a
festa. Em tempos que ninguém respeita o espaço e as férias de ninguém, achei
o máximo. Afinal um jovem respeitando o espaço privado do veranista, e este
dando um retorno para quem fazia uso de um espaço público. Isto tem sido
raro aqui pela praia, principalmente nos finais de semana.
Ficar sem Internet, me deixou mais livre para redescobrir a
veranista que mora em mim. Mas, somente com a rede, pude atualizar minha
vida urbana, e dar sinal de vida aos que ficaram por aí.

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