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Na sexta-feira santa perdemos uma personalidade, anônima
nos últimos anos, mas marcante em muitos anos na vida de muitos leopoldenses.
O professor Lauri Werb, do Sinodal.
Eu poderia narrar sua história a partir da sua origem lá
pelas bandas de Três Coroas, mas resolvi escrever das coisas que vivi e
testemunhei enquanto colega de trabalho por tantos anos no Colégio Sinodal.
Antes de ser sua colega, o conheci nas apresentações do
Projeto Cultura, parceria da Stihl-Sinodal, na década de 80, em que o Morro
do Espelho assistia concertos e peças teatrais de renome nacional, onde ele
era um dos integrantes da platéia cativa.
Logo em seguida, ao ingressar no colégio, ele ministrava
aulas de português e inglês, dava aulas de Expressão Corporal, que na época
as terceiras séries tinham seus primeiros contatos com a linguagem teatral.
Neste tempo ele coordenava o grupo oficial de teatro da escola, que viajava
pelo estado em apresentações, cujo formato teve origem nas excursões
artístico-culturais, que as escolas evangélicas tinham como tradição
promover levando arte e cultura pelo interior, com apresentações entre as
escolas.
Certa vez, pelos 25 anos de
Sinodal, em que os
professores e funcionários são homenageados especiais garimpei informações
sobre ele, e muito ainda temos a contar dele, como ex-aluno do colégio,
estudante de letras e formado na Unisinos. Durante muito tempo foi professor
responsável pelo Internato, tempo em que residia no Colégio coordenando os
horários de estudo e vida dos adolescentes e jovens que vinham de diferentes
cidades, para morar e estudar no
Sinodal.
Lauri foi várias vezes professor conselheiro, inclusive da
turma de oitava série do meu filho, e houve um tempo em que acampávamos com
os alunos, nas famosas excursões de série. Numa das últimas, eu e meus dois
filhos dividimos uma barraca, convivendo um fim de semana com o professor e
sua turma na Picada Verão, em que dormíamos com um olho aberto e outro
fechado ou então ao redor da fogueira todos ficávamos acordados para
garantir a paz de todos juntos, garotos e garotas compartilhando canções e
histórias. Da mesma forma, Lauri era personagem garantido nos retiros de
professores e funcionários. Metódico, preparava nossos pratos principais
(seus risotos e massas eram especiais!) e tudo era militrimetricamente
fatiado. Nos últimos tempos o processador fatiava do jeito que ele
recomendava para melhor preparar os pratos...
Seu aniversário comemorado em maio reunia no seu
apartamento os colegas de trabalho e amigos, para degustar os canapés que
minuciosamente preparava, como também separava sua louça de bom gosto, seus
copos de cristal e a trilha sonora de alguma relíquia da sua coleção de CDs.
(ele foi a primeira pessoa que conheci que tinha uma coleção de cds
importados, muitos eruditos da Deutshe Gramophone numa época que poucos
tinham CDs, na transição do vinil para o cd player.
Falando
em música. Ele era incapaz
de cantar um mi afinado, em diferenciar notas musicais, mas era o
apreciador de música de melhor bom gosto com quem já convivi na minha vida.
Era impressionante seu conhecimento dos clássicos entre os compositores da
música universal, Beatles ou pérolas da música brasileira, .
Adorava contar piadas em alemão no seu dialeto mais
carregado, e para mim e outros traduzia pacientemente com as mesmas risadas,
que compartilhava com o grupo que também falava e entendia a língua. Contava
histórias como ninguém e muito de história do Sinodal, junto da professora
Lilian Saenger ele selecionou e editou em um livro, Sinodal 65 anos...
Aposentou-se da sala de aula e continuou revisando textos e
auxiliando no Museu Escolar, nos últimos anos, antes de afastar-se em
definitivo do Colégio que sempre amou e sempre preservou o “espírito do
Sinodal”, do qual era defensor ferrenho.
Entre suas peculiaridades, assim como bom ouvinte era um
excelente gourmet no preparo e degustador de bons pratos. Não são poucas as
fotos de eventos em que ele aparece nos bons momentos de boa mesa posta.
Isto é inesquecível.
Solteiro convicto, com pequena família, nos últimos anos,
já adoentado não mais morava no Morro do Espelho e sim com sua única irmã,
cunhado e sobrinho e afilhado a quem sempre teve grande apreço.
Me despedi dele por telefone alguns dias antes de sua
partida, e um pequeno grupo de amigos conviveu fora dos muros do
Sinodal até seus últimos
instantes... Seus olhos azuis sem fim, permaneceram vivos assim como sua
lucidez, até o final, com seus comentários sinceros que chegavam a doer, uma
de suas características. Convivi bastante com ele já aposentado em que
revisava meus textos quando editava o jornal da escola, e quando participei
da elaboração do livro dos 65 anos.
Para mim e para muitos de seus amigos e alunos foi grande
conselheiro. Me estendeu sua mão sempre. Quando pegava carona comigo
ficávamos horas em frente ao seu prédio entre piadas, histórias familiares
de cada um, e disparando petardos nas questões de política ou de poder em
que sempre fomos companheiros nas críticas e elogios.
Eu o chamava de Lalau, outros de Lau, outros de Larry.
Minhas palavras são para que não fique no esquecimento sua passagem por São
Leopoldo, pelo Colégio, pela história que ajudou a construir e que o fará
inesquecível na memória de quem conviveu com esta personalidade memorável.
Seus quadros, suas esculturas, seus CDs e filmes mostravam seu bom gosto em
viver. Suas caminhadas a beira mar nas férias ou feriados, suas leituras de
bons autores e grandes biografias delineavam os intelectuais, que antes de
ter trem em São
Leopoldo, pegavam o Central na Rodoviária e assistiam aos bons concertos, shows
e peças teatrais nos melhores teatros da capital. Fui em alguns espetáculos
com ele. Um inesquecível foi o concerto da orquestra e coral Unisinos com
Kleiton e Kledir, onde nossos olhos aguavam e nossas mãos aplaudiam nossa
geração no palco em som e cor. Veremos sempre este professor na platéia nos
assistindo. Agora, no mezanino mais alto, lá de cima, onde a gente não o vê,
continuará nos aplaudindo e nos criticando, como poucos sabem fazer, como
poucos sabem compreender. Valeu, Lalau. Para sempre, professor Lauri!
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