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Uso do espaço que
disponho como colaborador do SULMIX para publicar o texto que segue. Resulta
de um amplo trabalho feito com jovens lideranças num processo de
planejamento do QUINTO FÓRUM VIDA URGENTE, evento que acontecerá em Porto
Alegre, dia 28 de agosto de 2008, DIA NACIONAL DA SOLIDARIEDADE. Lucas,
estudante integrante da comissão organizadora desse evento juvenil, nos faz
mergulhar na luta e no compromisso por mais qualidade de vida.
É quando a noite cai que ele sai de casa e se vai. Livre para
o mundo, crente que está pronto para voar. Sem com nada se preocupar o
garoto deixa sua casa em busca de algo novo que lhe faça sentir-se vivo. A
cidade pulsa a noite, ela o chama, e quer que ele esteja lá. O sentimento
que ele busca é de saber que está vivo, e por isto, corre nas ruas escuras
da madrugada. As calçadas espelham a luz que os postes emanam, a cada
esquina as ruas correm mais e mais rápido, os prédios ficam para trás e se
fazem pequenos diante da grandeza da noite. Ela está viva, a cidade à noite,
vive! Ela só procura a ele, pede sua presença em todos os lugares, e é isto
que ele sente, é isto que ele quer sentir, só para saber que está vivo.
Provar um pouco do doce sabor que a noite lhe dá. Ele está sozinho ali,
correndo e buscando um objetivo, a resposta que tanto procura aquela que
pode estar na próxima esquina!
Corre sem pensar, quer somente sentir a adrenalina que é
correr contra o vento lunar que sopra na madrugada. Cada vez mais rápido,
ele vê o chão passar por baixo de seus pés, as árvores das praças se
deformarem em sua visão. Está tão só e mesmo tempo têm tantos ao seu redor.
A cidade é sua companhia, as luzes dela o alimentam e fazem sentir-se vivo,
elas o escondem da escuridão da noite. Não há com o que se preocupar, viver
é tão bom! Anda pela cidade toda, deixando tudo para trás, buscando algo que
não sabe se pode encontrar, a certeza de viver e nada temer. Para ele o
mundo poderia parar naquele momento, o garoto grita a vida, e corre com sua
melhor amiga, a madrugada iluminada. Mas é no auge de sua felicidade que
aquilo o acerta, um momento que ele não irá esquecer nunca. As luzes que lhe
dão vida, agora a tiram, em um único momento a cidade pára, o coração
pulsante sobre a terra parou, ela perde seu brilho quando o silêncio é
quebrado por um único grito de dor.
Sua vista vai do branco ao preto em segundos, sente que algo
está errado... Quem apagou as luzes? Ele só quer voltar a correr, um pouco
mais, somente um pouco mais para sentir aquilo, a essência da vida por mais
alguns segundos, é isso que ele pede. Não pode mais, o garoto não se move
mais, só consegue ver o negro céu e as pequenas estrelas que nele estão.
"Será que vou ser uma estrela? Sim, eu quero ser uma estrela para poder
brilhar eternamente." É o pensamento dele, ao não sentir suas pernas, não
podendo mover a cabeça ele fica só a esperar que algo aconteça que alguém
lhe explique o que aconteceu. Tudo estava tão perfeito, e de repente aquilo
acaba num piscar de olhos, ou até mais rápido, porque ele não lembra nem de
ter piscado.
Minutos depois ele ouve uma sirene, não entende bem porque,
mas espera que possam responder à suas perguntas. Tenta ver o que acontece
ao seu redor, entretanto seus olhos já não mais têm o brilho das luzes para
ver. O céu já não mais é negro, agora o azul se mistura com o laranja, e vai
amanhecendo. Mais um dia que se vai, mais um que se foi. Ainda lá, deitado
no chão, e agora somente conseguindo escutar, ele ouve uma voz familiar. Era
sua mãe, mas o que ela estaria fazendo ali? Não sabe responder. Ela chora, é
isso que ele consegue escutar, ela chorar e seu pai falar que tudo vai ficar
bem, mas pela primeira vez, ele sente que no rosto do pai, uma lágrima doce
escorre... As palavras que consegue escutar são somente três, mas não pode
responder... Como ele quer responder, mas simplesmente não sente sua boca.
Aquelas palavras ecoam em sua mente e ele se vai.
O garoto da luz, agora se foi. Quem é o culpado? Talvez seja
aquele outro rapaz que dirigia o carro quando lhe acertou, ou talvez seja do
homem que vendeu a bebida para o rapaz do carro, ou ainda, pode ser do dono
do estabelecimento, que deixou seu funcionário vender para o garoto e ainda
disse que nada nunca lhe aconteceu, que aquilo era bobagem, e deu desconto
para o garoto. Pode ser de qualquer um, não se sabe... O que se sabe é que
mais um se foi, procurando encontrar as respostas, e vivendo o prazer de
viver. Aquilo que tinha de mais precioso foi-lhe retirado, mas não somente
dele, sua família também não mais o tem.
E agora... O que fazer? Não
sei dizer. Somente sei que o garoto, morreu sem saber, e que somente
encontrou aquilo que procurava quando os olhos ele fechou. Hoje, ele brilha
lá em cima e olha por todos aqueles que não conseguem ver.
Palavras fortes e
sensíveis como essas valorizam nossa luta em defesa de um protagonismo
juvenil, ativo, efetivo e ativo. A juventude precisa de espaços para fazer
acontecer seu desejo em contribuir por um mundo melhor. Lucas, como tantos
jovens, não está sozinho nessa luta.
PS - Lucas Aranha é
aluno do Terceiro Ano do Instituto São Judas Tadeu de Porto Alegre. Integra
o Conselho da Juventude, responsável pela organização do Fórum Vida
Urgente. O FÓRUM faz parte dos projetos de cidadania da Fundação Thiago de
Moraes Gonzaga.
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