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O que falam na TV sobre o jovem não é sério, assim canta
Charlie Brown Jr num dos seus clássicos. Há uma irreverência em fazer
cidadania que rejeita o modelo tradicional ou elitista de manifestação
daquilo que foi estabelecido como modelo cultural.
Uma das melhores experiências com crianças de periferia que
conheci, fez cruzar um jovem que estudou numa das escolas mais renomadas de
Porto Alegre, reconhecida pela excelência humana e acadêmica com que conduz
seu projeto pedagógico. Na juventude, já se manifestava essa paixão em
entender o papel da arte como uma ferramenta vital para construção de
cidadania com crianças excluídas daquilo que codificamos como cultura.
Nascia, na contramão da exclusão, uma orquestra infantil de música capaz de
executar clássicos da música popular brasileira com conhecimento de causa. A
música afirmando mais uma vez sua universalidade como forma de expressão.
Confesso que a inspiração para essa crônica foi as duas
posições das Secretarias da Cultura, municipal e estadual, nos dois últimos
ZH Cultura. Existe cultura entre jovens de periferia? Negar essa premissa é
uma afronta á dignidade de quem faz da arte do grafite, ferramenta de
combate à violência e de construção de uma cultura de paz ativa. Essa
história de que são os jovens marginais que agridem o patrimônio histórico é
preconceito. A juventude que consome enlatados agride a cidade sem a menor
consciência do que seja memória histórica. A diferença está no bolso e no
consumo daquilo de quem pode comprar bens culturais. Quem define isso?
Isso é tão sério quanto resgatar a memória, quarenta anos
depois, das juventudes do final dos anos 60. Precisamos, todos nós, entender
esse jeito de expressão cultural dessa juventude que fala por sua arte,
música, dança e teatro. Chegaram os regueiros, os adeptos do hip-hop. Ontem
e hoje, uma juventude que usou, através de sua irreverência, um estilo
próprio de dizer um basta a tudo aquilo que cheira a corrupção e impunidade.
Inúmeras são as formas de construção da cidadania através de
uma arte que julgamos periférica, comprovadamente responsáveis pelo resgate
de auto-estimas fragilizadas por questões de cor e de bolso. São as
juventudes no plural que estão a merecer de todos nós um estudo sério sobre
a complexidade desse fenômeno. Usam a dança, a música e a arte para falar de
sonhos de igualdade e de respeito à diversidade. O discurso do palanque está
longe do entendimento de como falam as diversas tribos culturais. Será que,
essa apatia e indiferença pela palavra política, não é também um jeito dessa
meninada falar conosco?
Esse garoto que estudou numa escola de classe média alta e
que fez da música uma ferramenta de educação e humanização, entendeu a
linguagem e a sinergia que nasce dos acordes musicais. Sua orquestra é sua
arte e sua assinatura de compromisso por uma cidadania para além dos
conceitos livrescos.
Uma viagem pelo mundo dos adolescentes e da juventude faria
muito bem para quem faz as leis e para quem tem o dever em pensar políticas
públicas para a geração que, aqui, está, sedenta por protagonismo. Sim, o
que eles falam é muito sério,..Escutemo-os...
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