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Carlos Barcellos

Professor e Escritor

Um lema, a juventude e o consumo

 

Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro. Encanta-me o lema da Campanha da Fraternidade de 2010. Entre os grandes desafios trazidos, um deles, é a reflexão sobre a questão do consumo. Quando nos deparamos com cenários de completo vazio existencial de nossa juventude, podemos vislumbrar alguns elementos que provocam essa perda de uma vida com qualidade em todos os sentidos. Estamos diante de uma Campanha que mergulha na vida real de todos nós.

A cultura do consumo percebida em suas grandes catedrais que são os shoppings, cria uma identidade de personalização do objeto e de coisficação do ser humano. Estamos falando de um cenário que mensura a marca da mochila, o tipo de tênis e o poder do celular que está nas mãos do seu dono. E, de repente, eles se sentem deuses. Nasce uma casta onde pensar, ler, escrever é algo completamente deletado. Afinal, fazer o que se gosta é diferente de gostar do que se faz. Legal é horas e horas tomando banho de sol.  Dormir de madrugada e acordar por volta de 14 horas. Comer e voltar a dormir. E, quando a noite vem, é preciso estar produzido para os grandes embates amorosos que não passam de um ficar noturno. Há um endeusamento do ócio inerte. Nesse início de ano letivo, muitos passeiam na escola, fazendo dos shoppings um lugar farto de aprendizado. Uma vida vazia estampada naquela vitrine vista, quantas vezes mesmo?

Somos educadores dessa geração sexualizada por uma mídia que agride a infância acelerando seu processo de maturação. Ainda hoje a boneca Barbie, é um símbolo de uma cultura que define o padrão de beleza, separando as eleitas, daquelas deserdadas. Grande coisa se isso gera aneroxia. E o sonho segue sendo alimentado. No vazio existencial o negócio é ser jogador de futebol, atriz ou modelo. As referências fundantes dessa geração possuem nomes e endereços. Estão estampadas em suas vestimentas, cortes de cabelos, som. São tribos mergulhadas numa vida sem sentido. Aqui nos deparamos com uma encruzilhada. O caminho mais comodista é afirmar que tudo isso não nos diz respeito. Aceitar, porém, que atrás dessa conduta sem significado vital, está um pedido de ajuda, é um convite para um mergulho na luta por uma geração com  um outro parâmetro de pensar e construir o mundo. Aqui está o encanto pelo verbo educar. Sei também, caro leitor, que falta mergulhar em outros rostos juvenis. Façamos juntos isso.

Ao escolhermos o caminho árduo da sensibilidade e da formação comunitária, estamos oferecendo uma resposta que não está pronta. O vazio existencial precisa de outro alimento. Essa sede por outros caminhos é a luz do fim do túnel numa geração fadada a mergulhar na cultura da droga, alimento para dar sustentação ao basismo e ao trivial. Nossas escolhas pedagógicas precisam definir com clareza como pretendemos enfrentar esse desafio. A educação para os tempos líquidos está a exigir a sinergia entre educar para valores essenciais com lições de altruísmo que valorizem essas escolhas. No campo da educação somos semeadores. O solo é desafiador. Se fosse fácil, a cultura do consumismo nos daria as respostas.

Queremos servir a vida em plenitude ou assistirmos esse circo maquiado de felicidade? Aqui está um grande desafio dessa Campanha. Assumir a luta do amor ao próximo, indo além das aparências. Que escola somos e que geração desejamos formar? Realmente não podemos servir a educação para a vida cultuando e abençoando o individualismo. Um Deus que fala da vida não é o mesmo que mercantiliza a mesma. Questão central de nosso projeto educativo.

 

 E-MAIL DO COLUNISTA: canb@cpovo.net

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