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A gente pensa que padrões de
beleza dependem exclusivamente de gostos pessoais, de idiossincrasias. É
verdade, mas só em parte. Quando achamos uma mulher bela, não estamos apenas
aplicando padrões estéticos pessoais. A cultura também nos influencia, e,
antes da cultura, a biologia está presente: coisa hoje muito discutida, mas
não são poucos os cientistas defensores da idéia segundo a qual opções pelo
sexo oposto dependem da necessidade evolucionista de gerar uma prole com a
pessoa mais adequada para vencer a implacável luta pela subsistência.
Tomem o caso da Andressa
Soares, que está galvanizando a atenção dos brasileiros e que é conhecida
como a "mulher-melancia" por causa do tamanho das nádegas. Ninguém nega que
melancia é uma fruta deliciosa, mas será que é a metáfora a causa do
fascínio? Provavelmente não. São as nádegas.
Diz um blog na Internet que
as nádegas da Andressa são verdadeiros contêineres. O que faz algum sentido.
As nádegas são um habitual depósito para a gordura corporal; em termos do
metabolismo equivalem, vamos dizer, à poupança (só que não paga juros). Tal
depósito, em períodos de fome coletiva, poderia garantir a sobrevivência da
pessoa, sobretudo da mulher, mulher essa que tinha, portanto, um certificado
de garantia, e que podia escapar imune ao recall da morte pela desnutrição.
Assim, as hotentotes africanas ficaram famosas pelas grandes nádegas. Um
exemplo famoso foi o de Saartjie Baartman (1789 - 1815), conhecida como a
"Vênus Hotentote" - o apelido aludia a uma conhecida estátua grega da deusa
Vênus, a "Vênus calipígia" que mostra (e olha, por cima do ombro) suas bem
desenhadas nádegas. Saartjie viajou pela Europa exibindo, em circos, as
nádegas. Mediante pagamento extra os interessados podiam tocá-la.
Subindo um pouco (no corpo,
não na vida), temos as cadeiras, que também fascinam os homens. Como diz o
samba de Dorival Caymmi a respeito da Vizinha do Lado: "Ela mexe com as
cadeiras pra cá, ela mexe com as cadeiras pra lá, ela mexe com o juízo do
homem que vai trabalhar". Cadeiras amplas nos falam de uma bacia ampla,
capaz de, na gravidez, acomodar sem problemas o bebê. E cadeiras móveis
falam do prazer que esta mulher é capaz de proporcionar ao parceiro.
Nem todos os povos e
culturas são fixados em nádegas e cadeiras. Os americanos, por exemplo,
gostam de mamas grandes. O cirurgião plástico Ivo Pitanguy conta que uma vez
uma americana procurou-o dizendo que tinha problemas com os seios. De fato
eram muito grandes, e Pitanguy disse que poderia diminuí-los, mas, para sua
surpresa, não era isso que a mulher queria. Ela queria aumentá-los ainda
mais. A preferência masculina por seios enormes, coisa que certamente
influenciava a decisão dessa mulher, teria uma explicação freudiana:
resultaria de uma fixação infantil no seio materno.
E, por último, a boca. Todo
homem gosta de uma boca carnuda. Lábios finos, apertados (tight lips)
levantam suspeição: fazem-nos pensar numa pessoa voltada para dentro,
egoísta, maquiavélica. Porque a mucosa, rósea, úmida, delicada corresponde à
intimidade da pessoa, e é essa intimidade que queremos partilhar quando
estamos enamorados.
No filme chinês O Sabor da
Melancia, a fruta funciona, ainda que de maneira complicada, como símbolo
erótico: um casal faz sexo com uma melancia entre o homem e a mulher. O que
lembra certas histórias que a gente ouvia na infância: na falta de mulher ou
de qualquer outra alternativa para o contato sexual, as melancias eram
mobilizadas. Pobres melancias. Mas para uma fruta que vai ser comida de
qualquer jeito, talvez aquilo fosse apenas uma manobra introdutória.
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