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Tenho um amigo culto e
inteligente, cujo Waterloo é a cozinha: lá, como Napoleão na batalha contra
os ingleses, ele é irremediavelmente derrotado. Dois exemplos: uma vez, a
mulher lhe pediu que abrisse dois furos numa lata de azeite recém-comprada.
Ele abriu os dois furos - um em cima, outro em baixo, e ficou muito admirado
quando viu o azeite escorrer para o chão. Numa segunda vez, resolveu
cozinhar arroz. Colocou os grãos na panela e levou-a ao fogo. Horas depois
foi olhar o resultado. O arroz estava carbonizado, pela simples razão de que
ele não tinha acrescentado água. Conseguiu transformar a panela num forno
crematório.
As duas historinhas reforçam
uma impressão geral: para o homem, a cozinha é terreno minado, é território
hostil, povoado de inimigos. Mas como se explica, então, que a maioria dos
chefs seja do sexo masculino? Por que existe o brilhante Anonymus Gourmet
mas não existe uma Anonyma Gourmet igualmente brilhante? Por que as
confrarias culinárias são exclusivamente masculinas? E isto não é de hoje. O
mais famoso livro de receitas da antigüidade, escrito originalmente em
latim, é de autoria de um certo Apicius, que, tudo indica, era um famoso
gourmet da época, Marcus Gavius Apicius.
A bíblia dos gourmets, A
fisiologia do Gosto (Physiologie du Goût) foi escrita por Jean Anthelme
Brillat-Savarin (1755 - 1826), advogado e político francês que durante a
Revolução adquiriu certa fama defendendo a pena de morte, mas que, nas horas
vagas, pensava em coisas mais agradáveis. Seu livro baseia-se, segundo o
próprio Brillat-Savarin, na constatação de que "a descoberta de um novo
manjar causa mais felicidade ao gênero humano que a descoberta de uma
estrela". As receitas incluem até pratos afrodisíacos, o que certamente
explicaria boa parte da sensação de felicidade.
Homem cozinhando é resultado
da seleção natural, de sobrevivência do mais apto. Há milênios as mulheres
estão destinadas à cozinha, assim como estão destinadas a cuidar da casa e
dos filhos. É uma sina que elas aceitam com resignação, mas raramente com
prazer - e não podia ser diferente, dada a conotação opressiva dessa
distribuição de tarefas. Mas quando o homem vai para a cozinha, muitas vezes
vencendo preconceitos, podemos ter certeza de que se trata realmente de
vocação, de um apelo interior irresistível.
É uma vocação sofisticada.
Nos jantares de cozinheiros, os pratos quase sempre tendem para o insólito.
Bife com fritas? Jamais, é heresia. Predominam os nomes franceses, com
receitas que fariam Apicius e Brillat-Savarin delirar - e dão muita inveja
aos habituais representantes da espécie masculina, que, literalmente, nunca
passam do feijão com arroz. E a maior parte nem sabe preparar feijão com
arroz. É preciso louvar o Senhor quando, pelo menos, se lembram de adicionar
água à panela em que está o arroz.
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