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O Luciano Trigo, jornalista e escritor gaúcho que vive em São
Paulo, escreveu um livro de título muito significativo: Todas as Histórias
de Amor Terminam Mal. Uma drástica afirmativa que, contudo, encontra apoio
nas grandes obras ficcionais, a começar, claro, por uma das mais famosas
peças teatrais de todos os tempos, Romeu e Julieta. O que temos ali são dois
jovens apaixonados que acabam pagando o preço do ódio entre suas famílias,
morrendo ambos tragicamente. Shakespeare estava dando início a uma tradição
romântica que chegaria ao auge no século 19, com grandes obras, das quais
Anna Karenina, de Leon Tolstoi (1877), é um dos exemplos mais conhecidos:
aprisionada num casamento sem amor, Anna começa um caso com o charmoso
Vronsky, que, claro, teria de terminar em tragédia. Em tragédia termina
também Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Mesma coisa: casada com o
insípido doutor Charles Bovary, vivendo no interior da França, Emma Bovary
embarca não em um, mas em vários casos, que terminam quando os amantes
acabam por cansar da pobre mulher. E o que me dizem de Dom Casmurro, do
nosso Machado de Assis, cujo centenário está sendo lembrado este ano? Vocês
objetarão que se trata de uma história de ciúmes, mas não são os ciúmes uma
evidência, ainda que patológica, do amor? Bentinho ama Capitu, sim; ama de
uma forma neurótica, maluca mesmo, mas ama. E a dúvida que a obra suscita -
Capitu traiu ou não? - até hoje polariza o Brasil, tanto quanto a divisão
das torcidas por times tradicionais.
A regra se estende também aos filmes que se baseiam em
grandes histórias de amor, a começar por aquele que, seguramente, é o maior
de todos, Casablanca, de 1942. Quem pode esquecer a paixão entre Humphrey
Bogart e Ingrid Bergman, quem pode esquecer da cena final em que se separam,
ela partindo no pequeno avião? ...E o Vento Levou, tirado do romance
homônimo de Margaret Mitchell, também tem um final célebre, quando Rhett
Butler, vivido por Clark Gable, termina o casamento com Scarlett OHara (Vivien
Leigh), que, desesperada, lhe pergunta: "Mas o que farei? Para onde vou?" -
ao que Rhett responde com o célebre "My dear, I dont give a damn" que
poderíamos traduzir por "Minha querida, eu não estou nem aí". O musical West
Side Story (Amor, Sublime Amor), cuja adaptação teatral brasileira está em
cartaz em São Paulo), também não poderia terminar bem - afinal, baseia-se em
Romeu e Julieta. E Titanic se encerra com uma trágica cena.
Claro, também há livros, e peças, e principalmente filmes que
terminam bem - o final feliz é uma clássica fórmula de Hollywood e tem uma
explicação: as pessoas vão ao cinema para esquecer as amarguras do
cotidiano, para recauchutar suas crenças numa vida feliz. Mas é a desgraça
que nos chama a atenção, e a explicação está na genial frase de Tolstoi que
aparece justamente em Anna Karenina: "Todas as famílias felizes se parecem;
as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira". Troquem "famílias" por
"casos de amor" ou por "casamentos" e vocês terão a resposta. Na desgraça,
assim como na doença, a condição humana se revela por inteiro, todas as
máscaras caem. Agora: preferimos as desgraças nas páginas de um livro ou na
tela. O que tem uma vantagem: faz com que nossa própria vida pareça muito
melhor, faz com que possamos dizer para a desgraça: "My dear, I dont give a
damn".
Vários leitores (entre eles Jair Ferreira, médico e excelente
barítono) assinalaram um equívoco na crônica sobre noivas: o título da ópera
de Smetana ali citada não é A Noiva Roubada e sim A Noiva Vendida.
Desculpem, foi uma roubada.
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