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Na semana passada, o presidente Lula sancionou o projeto de
lei que cria, no Código Civil, a opção de guarda compartilhada dos filhos de
pais separados. Até agora só havia a guarda unilateral, ou seja, o filho
ficava com um dos pais, geralmente com a mãe. E isto dava origem a uma
figura que acabou se tornando típica: a figura do pai de fim de semana, o
pai que vai buscar o filho em geral na sexta à noite e devolve-o no domingo
à noite. Como funciona isto? Num blog encontrei um pungente depoimento a
respeito. É um pai que declara, patético: "Eu, que desde o dia em que o meu
filho nasceu abdiquei de muita coisa para estar perto dele, eu que, por
causa do bebê, desisti de projetos profissionais e recusei propostas
tentadoras, eu que cuidei dele, eu que sabia o horário certo de aquecer o
leite para a mamadeira, eu passei a pai de fim de semana." Uma semana,
continua o relato, que custava a passar. E que culminava num fim de semana
nem sempre tranqüilo, rotineiramente passado num shopping. Por que o
shopping? Porque o shopping oferece diversão, comida, oportunidade de
compras; o shopping ajuda a vencer a ansiedade não raro associada a estes
encontros.
A propósito, lembro o conto deste belo escritor
norte-americano que foi John Cheever, sensível intérprete dos conflitos da
classe média. A história chama-se Reunião e começa assim: "A última vez que
vi meu pai foi na estação Grand Central, em Nova York". Por esta estação, o
rapaz que vive com a mãe deve passar, e ali ficará por uma hora e meia. É
este o tempo que tem para se encontrar com o pai, que mora naquela cidade. O
encontro acontece, mas resulta num desastre. O almoço que havia sido
combinado não ocorre, porque o pai simplesmente não consegue escolher o
restaurante: em cada estabelecimento que entra compra briga com os garçons.
Finalmente, o rapaz é obrigado a se despedir: o trem está partindo.
Ficamos com a impressão de que este pai é um idiota; por
causa de suas idiossincrasias desperdiça o escasso e precioso tempo que tem
para conversar com o filho. Mas será que é assim? Será que este pai não é
movido pela ansiedade avassaladora que adivinhamos no relato anterior? Será
que as brigas não servem de válvula de escape para uma tensão que de outro
modo seria insuportável?
A palavra "guarda" tem uma conotação desagradável, mas
"compartilhada" é um adjetivo extremamente importante. É importante, em
primeiro lugar, na relação entre pais e filhos. Queixa-se o autor do
depoimento antes mencionado: "Nunca consegui que a mãe do meu filho falasse
comigo sobre ele. Na sexta-feira, quando tocava a campainha, o menino
aparecia sozinho; no domingo, quando ia levá-lo, já encontrava a porta do
apartamento semi-aberta". Ou seja: todo contato era evitado. Agora imaginem
como isso repercutia no filho.
Compartilhar simplesmente quer dizer respeito, cooperação,
junção de esforços para um objetivo comum. As pessoas não precisam se
abraçar, não precisam nem mesmo sorrir, quando estão compartilhando algo
importante; só precisam do bom senso. Isto vale para as relações entre
países, entre partidos políticos, entre grupos sociais. A vida não é feita
só de fins de semana. E os pais não são pais só em determinados dias. São
pais sempre, e mesmo que o casamento tenha terminado, precisam dar-se conta
disso.
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