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No Brasil, a batalha final não será travada entre o Bem e o
Mal, entre juízes e o STF, ou entre o Inter e o Grêmio. A batalha final será
travada entre os que acham que Capitu traiu e aqueles que defendem a idéia
de que Capitu não traiu. É uma discussão que agora tem mais de um século, e
que volta à tona por causa do centenário do criador de Capitu, o grande
Machado de Assis, autor de um romance que gerações e gerações, e não só no
Brasil, vêm lendo: Dom Casmurro. Casmurro, que designa um cara fechado,
mal-humorado, é uma palavra hoje pouco usada; mas o livro continua
mobilizando emoções. A história é narrada pelo próprio Dom Casmurro, um
advogado chamado Bentinho; já na adolescência ele se apaixona por Capitolina
(outro nome que ninguém mais usaria), a Capitu. Casam, e depois de algum
tempo, têm um filho, Ezequiel. Todos os ingredientes para a felicidade estão
presentes, mas Bentinho começa a suspeitar que Ezequiel não é filho dele, e
sim de Escobar, o melhor amigo do casal. Uma dúvida que na época - não havia
teste de DNA - não dava para esclarecer. E o ciúme vai destruir a vida da
família: o casal separa-se, Capitu morre, Ezequiel morre, Bentinho fica só e
vira Dom Casmurro.
Machado ficou conhecido como o Bruxo do Cosme Velho (este, o
bairro em que morava) e neste romance a gente entende a razão do apelido:
quando terminamos, ficamos sem saber se Bentinho relatou o que de fato
aconteceu ou se deu vazão à sua fantasia paranóica. E este é o grande mérito
do livro. Dom Casmurro não é, claro, a única história de ciúmes; Othelo, de
Shakespeare, aborda o mesmo tema, mas, nesta peça, não ficamos em dúvida:
sabemos que se trata da fúria de um ciumento.
Pergunta: como Capitu contaria a mesma história? Esta questão
serviu de desafio para Domício Proença Filho, escritor, professor de
literatura, membro da Academia Brasileira de Letras (e, a propósito, casado
com uma gaúcha, a também professora Rejane). Domício, autoridade em Machado,
escreveu um romance com a versão de Capitu (Capitu: Memórias Póstumas). Um
monólogo extraído desse romance foi recentemente apresentado no teatro da
ABL por esta grande atriz que é Fernanda Montenegro. Brilhante desempenho,
que levou o enorme público ao delírio e que também fez pensar sobre um
problema que há milênios nos atormenta: o que é, afinal, a verdade? Como
descobri-la? Questão tão difícil quanto crucial. A propósito, há um antigo e
famoso filme japonês, Rashomon, que narra um violento acontecimento visto
por quatro pessoas - e cada uma conta algo diferente. Mais um exemplo: a
nobelizada escritora sul-africana Nadine Gordimer escreveu uma Carta ao
Filho, resposta à famosa Carta ao Pai, em que Franz Kafka se queixa
amargamente do seu genitor. De novo: é o outro, e bem diferente, lado da
moeda.
Emerge daí uma lição óbvia: cuidado com a ruminação, cuidado
com o raivoso monólogo interior.
A verdade é dialética, nasce do diálogo - entre pessoas,
entre instituições, entre correntes políticas, entre grupos sociais. Quando
a pessoa fala consigo própria nem sempre tem o interlocutor adequado, como
mostra a história do homem que, tarde da noite, vinha dirigindo por uma
estrada deserta, quando furou um pneu. Ele não tinha macaco para fazer a
troca; mas avistou a luzinha de uma casa e para lá se dirigiu, na esperança
de que o dono tivesse um macaco para lhe emprestar.
No caminho foi imaginando o que o homem lhe diria: mas não,
eu não lhe conheço, como é que vou lhe emprestar o macaco etc. Sua raiva vai
crescendo, ele chega à casa, bate à porta, e quando o homem abre, grita:
"Sabe de uma coisa? Enfia teu macaco no rabo"!
Bentinho era muito refinado para usar estas expressões. Mas,
na estrada da vida, ele ficou parado igual, sem que ninguém o ajudasse. E
isto até hoje nos faz pensar. Entenderam agora por que Machado é um mestre?
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