|
Era, confesso, uma falha no meu currículo, mas eu não sabia
muito sobre a Clarah Averbuck. Acompanho à distância o trabalho dela, fiquei
entusiasmado com a repercussão de Nome Próprio, o filme que, baseado na obra
dela, foi dirigido pelo talentoso Murilo Salles com a atriz Leandra Leal. E,
ah sim, sei que é filha do grande Hique Gomez, um dos maiores talentos
musicais surgidos no Brasil (segundo informações, o H de Clarah resultou de
uma brincadeira de escola. Pode ser, mas acho que é uma homenagem, mais que
merecida, ao Hique).
E descobri que a Clarah nasceu em 1979, o mesmo ano do Beto
Scliar. Uma coincidência simbólica, porque o Beto também está iniciando sua
carreira, só que na fotografia.
Começo de carreira: algo absolutamente inesquecível. É uma
fase difícil e vital, uma fase de altos e baixos, uma fase em que a
esperança alterna-se com o desespero, às vezes em questão de minutos. Isto é
válido principalmente na carreira artística, que é sempre uma escolha
ousada, heterodoxa, para dizer o mínimo.
Freqüentemente significa abandonar os estudos, coisa que a
Clarah naturalmente fez. E freqüentemente significa buscar caminhos onde,
aparentemente, não há caminho algum. Sim, eu sei que “Caminante no hay
camino, se hace camino al andar”, como diz o poeta espanhol Antonio Machado,
mas não sei se alguma vez ele andou no matagal da incerteza literária. Não é
fácil, Antonio Machado. Posso falar por experiência própria. Há uma fase na
vida em que a parte mais importante da anatomia do aspirante a escritor é o
sovaco: ele coloca os originais embaixo do braço e vai em busca de editores,
de gurus, de almas caridosas. Fiz isso, enchi o saco de muita gente,
inclusive do pobre Erico Verissimo, a quem levei um conto. Recebeu-me com
aquela amabilidade que era sua marca registrada, pediu-me que voltasse dali
uns dias. Quando o fiz, elogiou-me muito, disse que eu tinha um belo futuro,
que deveria continuar. Saí de lá como se tivesse ganho o Nobel. E aí, uns
dias depois, descobri lá em casa a última folha do conto, que, de nervoso,
eu tinha esquecido. Erico não deve ter entendido nada. Mas, grande ser
humano que era, optou por encorajar o jovem aprendiz. Pelo que sempre lhe
serei grato.
Clarah, que a rigor já passou da fase de principiante (já tem
vários livros publicados, Vida de Gato, Das Coisas Esquecidas Atrás da
Estante, Máquina de Pinball) e por editoras importantes começa sua carreira
num mundo diferente daquele que minha geração encontrou. Para começar,
literatura para nós era sinônimo de ativismo político; tratava-se de fazer a
revolução através das letras.
Mas praticamente falávamos em circuito fechado, pois não
tínhamos como mostrar nossos textos. A geração de Clarah também é
contestadora, mas no sentido cultural, não político; preferem o rock ao hino
da Internacional, preferem Bukowski a Marx. E, muito importante, é uma
geração ligada, eletronicamente ligada, que desenvolveu uma nova forma
literária, o blog. Comunicação sintética, instantânea, ousada, que atinge o
vasto público da Internet.
Ou seja, o mundo se renova, a literatura também. Clarah
Averbuck, ícone da nova ficção, é um exemplo disso. Ela está fazendo seu
caminho, de forma talentosa e intrépida. De um passado muito remoto, o jovem
Moacyr, textos no sovaco, abana para ela, esperançoso.
|