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As grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo,
o islamismo, introduziram a idéia de um Deus único. Isto, na politeísta
antigüidade, era algo novo. E mais, tratava-se de um Deus homem,
representado no quadro dos grandes pintores (mas não no judaísmo e
islamismo, que proíbem imagens) como um ancião de expressão severa, cabelos
e barba brancos. Isto contradizia muitas crenças do Oriente Médio, que
cultuavam uma Deusa-Mãe, mas estava de acordo com o regime patriarcal que
caracterizava vários povos da região, os hebreus inclusive. Deus é o Supremo
Patriarca. Mas, diferente dos patriarcas, que tinham família, e às vezes
várias mulheres, e diferente também dos deuses gregos que – perguntem para o
Cláudio Moreno – viviam numa alegre promiscuidade, deuses traçando deusas e
vice-versa, Deus é único. E Deus é só. No cristianismo ainda temos a idéia
da Trindade, e temos também Maria, a mãe de Jesus. Mas no judaísmo antigo é
Jeová, só Jeová, e estamos conversados.
Jeová fala. Fala com os humanos, e falava antes de existirem
os humanos. Leiam a Bíblia: “Deus disse: faça-se a luz”. Deus falou, está
falado: a luz se faz, sem qualquer risco de apagão. Mas então aparece, no
Gênesis, uma frase intrigante: “Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança”. Por que “façamos”? A quem alude esse plural? Quem é que forma,
junto com Jeová, o “nós” implícito na frase?
Quem quer que seja este “nós”, de uma coisa podemos ter
certeza: não é o pai de Deus. O Todo-Poderoso do Antigo Testamento não tem
pai, pela simples razão de que é Eterno: sempre existiu, não foi criado, não
foi gerado, não nasceu. Isto é pré-condição para a onipotência. Deus pode
tudo. Deus não precisa de pai.
Esta é uma noção que muito cedo surge em nossa cabeça. Sem
ser Deus, nosso pai também pode tudo. Nosso pai é perfeito, nosso pai sabe
tudo, nosso pai resiste a qualquer embate. Nosso pai trabalha, nosso pai
provê as necessidades da família. Claro, nosso pai tem um pai, mas o avô em
geral (sobretudo o avô-coruja) é uma figura amável, gentil, que não prima
pela energia, pela capacidade de lutar, ao contrário de nosso pai que é
imbatível, é indestrutível. Nosso pai é Deus.
Ficar adulto é, entre outras coisas, dar-se conta da
limitação desse pensamento. Aos poucos vamos descobrindo, para nossa
dolorosa surpresa, que os pais têm fraquezas, têm limitações. Nossos pais
cometem erros, nossos pais fazem bobagens, nossos pais muitas vezes
fracassam nos seus empreendimentos. Nossos pais às vezes são transgressores,
nossos pais às vezes são corruptos. Já imaginaram o que é ser filho de um
corrupto? Já imaginaram ver o pai de vocês algemado, numa foto ou na tela da
televisão?
Os pais dão-se conta da imensa tarefa que cai sobre eles. É
um fardo pesado, um fardo que os faz cambalear. E que resulta não raro em
desespero porque eles sabem que, no fundo, não têm a quem pedir socorro.
Claro, existem os amigos, os parentes, os protetores. Mas não é este tipo de
ajuda que os pais querem. O que eles querem é corresponder à imagem
onipotente que os filhos têm deles. Mas quem pode auxiliar nisso? Assim como
Deus não teve pai, assim como Deus não pode olhar para o Céu em busca de
apoio (porque já está no Céu) os pais, no fundo, no fundo, não têm a quem
recorrer. Apesar da frase bíblica, Deus não é “nós”. Deus, como os pais,
está sozinho. Mas, e isto é um consolo, há glória e heroísmo nestes momentos
de solidão. É a amarga grandeza da paternidade.
Homenagens neste dia: a José Scliar, que deve estar contando
a Jeová as mesmas histórias que contava no Bar João, no Bom Fim; a Judith e
Beto, que fizeram de mim um pai.
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