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No final deste notável romance que é Caminhos Cruzados, de
Erico Verissimo, Clarimundo, professor de matemática, resolve tocar um
projeto antigo: escrever um livro em que um ET relatará como vê o nosso
mundo e a humanidade. Começa, naturalmente, pelo prefácio, onde se queixa de
que a vida é chata, monótona. Da janela de seu quarto, prossegue o
professor, ele vê numerosas pessoas, empenhadas no “ramerrão cotidiano”.
Entre parênteses, são estas as pessoas cujos dramas, tragédias e comédias
Érico acabou de narrar nas 286 páginas precedentes. Mas, diz Clarimundo,
“debalde os romancistas tentam nos convencer de que a vida é um romance”;
ele simplesmente não acredita nisso. Ao terminar o prefácio, Clarimundo tem
um sobressalto: na chaleira que deixou no fogão, a água ferve, “a tampa dá
pulinhos, ameaçando saltar”. Num pulo, Clarimundo tira a ameaçadora chaleira
do fogo. “Quase me acontece um desastre!” – pensa.
A experiência de Clarimundo não é única, pelo contrário.
Não são poucas as pessoas que, sobretudo depois de certa idade, comportam-se
como ele. Coisas de pouca importância – a chaleira cuja tampa quase salta
fora, a lâmpada que queima, o pneu do carro que está vazio – não raro
assumem proporções de desastres. E, pelo contrário, os verdadeiros desastres
muitas vezes são minimizados, sobretudo se, como mostra o caso de Clarimundo,
acontecem com os outros. Ao redor do professor, pessoas têm paixões
não-correspondidas, pessoas vêem suas melhores expectativas frustradas,
pessoas adoecem, pessoas morrem, mas, para ele e para muitos de nós, isto
não conta para nada. E a pergunta que se impõe é: a que se deve esta clara
inversão dos valores que em geral admitimos como autênticos? Será que a vida
nos torna insensíveis, indiferentes ao que se passa ao nosso redor? Será
que, com o tempo, nos tornamos verdadeiros Ets?
Em parte é isso, mas só em parte. De fato, com o tempo
diminui nossa sensibilidade para os dramas e tragédias do mundo; criamos
outros dramas e tragédias (o drama da chaleira fervendo) para substituí-los.
Mas também se trata de uma defesa psicológica. Para muitas pessoas a vida se
torna tão avassaladora, tão ameaçadora – os problemas de saúde, os assaltos,
a violência urbana, a intolerância – que o jeito é fugir disso, é
miniaturizar o mundo, trocar ameaças gigantescas por outras menores e
aparentemente controláveis. Só que a nossa capacidade de gerar sentimentos e
emoções não se esgota. Resultado: coisas pequenas, miniaturais, continuam
nos mobilizando emocionalmente. E, de repente, o fato de termos esquecido de
pagar uma conta transforma-se numa catástrofe.
A miniaturização da vida em si não seria problema. Mas,
como mostra o caso do professor Clarimundo, acaba resultando numa espécie de
fechamento para o mundo. Cair fora, “drop out” é uma tentação que não
acomete só os adolescentes; todos nós estamos sujeitos a ela. Não
precisamos, contudo, abandonar o barco. Podemos fazer como os antigos
navegantes: sondar o horizonte, abrirmo-nos para o mundo desconhecido.
Pensar grande, como dizem os empresários, não em termos de lucros
financeiros, mas de ganhos emocionais. Descobriremos então que, entre o céu
e a terra, há muitas coisas além da chaleira que ferve.
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