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Os estrangeiros que vêm ao Brasil frequentemente passam
pela experiência. Eles conhecem algum brasileiro, o contato é amável,
caloroso mesmo, e em geral termina com a frase: “Aparece lá em casa”. No dia
seguinte, lá está o visitante, batendo à porta do potencial anfitrião, para
surpresa e constrangimento deste. Porque, claro, o convite não era para
valer. Era algo como uma frase que brota automaticamente dos brasileiros, e
que os sociólogos e psicólogos enquadram na categoria das chamadas mentiras
consentidas. Por que consentidas? Porque são tacitamente aceitas por todos
nós, os nativos desse país. E sistematicamente causam surpresa àqueles que
vêm de fora.
Mentiras consentidas são comuns entre nós. “Meu Deus, como
você está bem!”. Mas a pessoa a quem dirigimos essa frase não está tão bem
assim. Padece de alguma doença. Envelheceu. Saiu-se mal numa cirurgia
plástica. É isso o que vamos dizer? De maneira alguma. Preferimos o “Meu
Deus, como você está bem!” e ficamos em paz conosco mesmos.
Outro exemplo, este do sociólogo Roberto DaMatta: um amigo
nosso escreveu um livro. Nós não lemos esse livro, ou então lemos, mas não
gostamos. E aí o autor nos pergunta o que achamos de sua obra. Jamais
seremos francos. Diremos algo como “É bem bom”, ou: “Funciona”. O que quer
dizer isso, “funciona”? Provavelmente nada, mas nos livra de uma situação
embaraçosa.
No Exterior é diferente. É famosa a frase do duque de
Gloucester para o historiador Edward Gibbon, quando este levou-lhe mais um
volume de sua obra Declínio e Queda do Império Romano: “Another damned,
thick, square book! Always scribble, scribble! Eh, Mr. Gibbon?” “Outro
maldito, grosso, quadrado livro! Sempre escrevinhando, escrevinhando! Não é,
Mr. Gibbon?”. Notem que a intenção do duque não era ofender o autor; só
dizia o que estava pensando, coisa que para um nobre inglês da época deveria
parecer absolutamente normal.
Não, nós não somos o duque de Gloucester. Somos
brasileiros, e a ficção sempre fez parte de nossas vidas, até como forma de
defesa contra a pobreza, a desigualdade, a injustiça social. Deus é
brasileiro? Talvez não seja, mas para um morador de favela essa pode ser a
única esperança. É por isso, aliás, que usei a palavra “ficção”, e não
“mentira”. A mentira sempre envolve um componente de sacanagem. A ficção,
não. A ficção, e todo escritor sabe disso, é uma outra dimensão da verdade,
é a verdade como ela deveria ser: toda história, idealmente, termina com um
final feliz: “casaram e foram felizes para sempre”. Será que é esta a regra
para todos os casamentos?
A mentira consentida também não é a mentira piedosa, que os
médicos usavam muito no passado: “Isso não é nada, vai passar”. Muitas vezes
não passava, muitas vezes a situação do paciente se agravava. Resultado: nos
Estados Unidos, os médicos começaram a ser levados aos tribunais, acusados
de ter ocultado (e a razão para isso era secundária) a verdade. Hoje em dia
um médico americano não dirá ao paciente que “isso não é nada, vai passar.”
Sua resposta será algo como: “Suas chances de recuperação com a cirurgia são
de 22,5%, mas há um risco de óbito da ordem de 5,6%. Se usarmos o tratamento
clínico, a possibilidade de melhora é de 21,3%, com efeitos colaterais
surgindo em 12,3% dos casos”. Muito diferente, portanto, do “aparece lá em
casa”.
Ao fim e ao cabo, porém, alguma mentira (os políticos que o
digam) é inevitável. Desde que a gente não tenha o nariz do Pinóquio, tudo
bem.
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