|
O casamento estava marcado não para maio, o mês das noivas,
mas para o último dia de abril de 2005. Foi isto que deu azar? Talvez. O
certo é que quatro dias antes da grande data, Jennifer Carol Wilbanks, 22
anos, que iria unir-se em matrimônio com John Mason, desapareceu da cidade
de Duluth, Georgia. A notícia, bombasticamente veiculada, provocou sensação
nos Estados Unidos, e chegou a levantar-se a suspeita de que a jovem teria
sido assassinada pelo noivo. No dia 29, contudo, Jennifer telefonou do Novo
México dizendo que tinha sido sequestrada por um hispânico (nos Estados
Unidos, hispânicos têm costas largas).
Era mentira. Jennifer tinha simplesmente fugido, o que
deixou furiosos os policiais que em vão a tinham procurado. Ela foi multada
e condenada a prestar serviços comunitários.
John Mason casou com outra mulher. Mas nem tudo foi
prejuízo, porque Jennifer vendeu os direitos de sua história por meio milhão
de dólares. Um molho foi produzido com o nome dela (“Jennifer’s Sauce”), e,
não por coincidência, um episódio numa série de tevê inglesa recebeu o nome
de The Runaway Bride, “A noiva fujona”.
Por que teria mesmo Jennifer fugido? Houve muita discussão
a respeito, mas uma coisa se pode dizer: as noivas não são apenas pessoas
que aguardam alegres um esperado casamento. O noivado, com todas suas
ansiosas expectativas, é uma espécie de terra de ninguém, um limbo que
separa a infância da vida adulta, a virgindade (mesmo que teórica) do sexo
praticado na cama de casal. É em nome dessa virgindade, dessa pureza, que as
noivas devem vestir branco. Ao som de uma música majestosa, ela adentra o
templo ou o salão de festas. E ali, diante do oficiante da cerimônia, ela se
transformará na princesa dos contos de fadas que encontra enfim o seu amado.
Depois vem a valsa, e o brinde, e os cumprimentos: uma noite inesquecível,
que transforma a moça em verdadeira rainha.
As expectativas são altas, portanto. Os temores também, o
que explica as superstições que envolvem o noivado e o casamento: o noivo
nunca deve ver a noiva com seu vestido antes da cerimônia, a noiva não deve
usar pérolas, a noiva deve vestir alguma coisa velha (homenagem ao passado),
alguma coisa azul (a cor do céu), alguma coisa emprestada (o apoio que vem
dos outros). Mas a pergunta se impõe: será que sentir-se depositária de
tantas expectativas não causa, para muitas noivas, um insuportável grau de
ansiedade? Não teria sido esta a causa da fuga de Jennifer (lembrando que
noivos também fogem)?
Na ficção, não raro a noiva é uma figura triste, dramática
mesmo. Na ópera A Noiva Vendida, de Bedrich Smetana, a noiva está sendo
obrigada a casar contra a vontade. Vestido de Noiva, a clássica de Nelson
Rodrigues, é uma história sombria, envolvendo até assassinato. A propósito,
há um clássico filme francês de François Truffaut, com Jeanne Moreau, que se
chama A Noiva Estava de Preto, e que também fala em crimes. É o reflexo, na
arte, de ocultos temores e fantasias.
Temores e fantasias à parte, a verdade é que moças e
rapazes casam, a verdade é que a festa de casamento alegra as pessoas, e a
alegria continua sendo o grande antídoto contra o medo. Não temam, queridas
noivas. Estamos aqui torcendo por vocês.
|