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A África do Sul, onde estive há três anos, é, como o
Brasil, uma sociedade complexa, multicultural. O presidente eleito, Jacob
Zuma, que acabou de assumir, é um exemplo disso. Trata-se de uma
personalidade controversa, e as controvérsias a seu respeito não raro
envolvem sexo. Quando era vice-presidente, foi muito criticado por ter tido
uma relação sexual com uma soropositiva sem usar preservativo, o que o levou
a pedir desculpas em público. Na ocasião, alegou, em sua defesa, que, depois
do coito, tomara uma ducha, o que, segundo ele, eliminaria o risco de
infecção. Esse tipo de declaração, num país em que 11% da população está
infectada pelo HIV, não chega a ser exatamente animador, principalmente
quando se considera que o próprio ex-presidente, Thabo Mbeki, pusera em
dúvida a etiologia viral da Aids.
Há mais, porém. Jacob Zuma já foi casado quatro vezes e
atualmente tem duas esposas (morando em cidades diferentes) mais uma noiva.
O que suscita questões: quais dessas senhoras será a primeira-dama? Haverá
um triunvirato (ou uma dupla, ao menos) de primeiras-damas? Como serão
distribuídas as tarefas entre elas?
Poligamia faz parte da tradição de vários grupos humanos.
No Velho Testamento, encontramos a venerável figura de Jacó, que teve duas
mulheres e 13 filhos, alguns com as esposas, outros com servas. E o rei
Salomão teve 700 esposas e 300 concubinas (essas últimas eram compradas).
Entre os muçulmanos, a prática também não era rara, e daí
se originaram os haréns – a palavra vem do árabe “proibido”, porque era
vedada a entrada no local a homens estranhos. O mais famoso harém ficava na
Turquia, e era conhecido pelos europeus como “Grande Serralho” (daí vem o
título da ópera de Mozart, O Rapto no Serralho). O sultão Abdul Hamid II,
que governou na passagem do século 19 para o século 20, tinha, como Salomão,
cerca de mil mulheres no harém. Entre os cristãos, houve uma época em que a
Igreja dos Santos dos Últimos Dias, fundada por Joseph Smith, permitiu a
poligamia, que, aliás era, no período, permitida pela lei americana. A
prática ainda é mantida, de forma clandestina, por grupos dissidentes
isolados, não filiados à igreja oficial. Mas provavelmente o campeão da
poligamia foi o imperador azteca Montezuma II, que tinha 4 mil mulheres.
A poligamia era (é) antes de mais nada uma questão de
poder, de mostrar quem é o macho alfa, aquele que comanda os outros e
monopoliza as fêmeas, dentro da luta darwiniana pela existência.
Mas esse poder tem seu preço. Para começar, é duvidoso que
o rei Salomão, Montezuma, ou o sultão Abdul Hamid II, identificassem suas
mulheres pelo nome, a menos que elas usassem crachá. Depois, havia a questão
das brigas do harém. Além do que, a prática sexual teria de ser intensiva,
tipo tempo integral e dedicação exclusiva, sob pena de inspirar dúvidas
quanto à potência real, o que sempre é desagradável.
Pensando bem, a monogamia tem suas vantagens. Pelo menos
para presidentes: é uma única primeira-dama, e estamos conversados.
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