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A ameba não celebra o Dia dos Namorados. Porque a ameba não
tem namorado – ou namorada, não sabemos bem o que ela teria. Porque a ameba
é um ser unicelular, composto de uma célula só. A ameba é assexuada. A ameba
também não sonha, não fantasia. A ameba não escreve poemas de amor, a ameba
não entoa canções românticas, a ameba não vai ao shopping comprar presentes
para o dia 12 de junho. O que pode resultar em alguma economia, mas,
convenhamos, é um tipo de economia que nós não gostaríamos de fazer.
Isso tudo não quer dizer que a ameba não se reproduza. Ela o faz, e de uma
maneira muito simples: a certa altura de sua curta vida ela se divide em
duas. E cada metade vai para o seu lado; são existências absolutamente
separadas, que têm como finalidade unicamente a preservação pessoal, se é
que podemos usar o termo “pessoal” nesta situação.
“Parece-me que os seres humanos absolutamente não se dão
conta do poder do amor”, diz Aristófanes em O Banquete de Platão. Para
explicar esse poder, ele conta o mito. No começo, diz, homens e mulheres
formavam uma única entidade, extremamente poderosa. Tão poderosa que esses
seres andróginos decidem invadir o Olimpo, o reduto dos deuses. O que cria
para Zeus, a mais importante das divindades, um dilema: deve ele punir com a
morte os ousados? Não, a morte é um castigo excessivo, e definitivo. Zeus
opta por uma outra alternativa: divide os andróginos em dois. Eles continuam
vivos, mas agora cada metade anseia pela outra metade, com a esperança de
que a união restitua-lhes a antiga força. A ânsia é o castigo, mas, vindo de
um deus, é um castigo que envolve um elemento de paixão. É por isso que a
atração entre aqueles que se amam é absolutamente inevitável e irresistível.
A narrativa grega corresponde a um mito muito disseminado.
Em certas correntes do hinduísmo, os primeiros Shiva e Shakti formavam uma
entidade só, assim como Mesha e Neshiane para os antigos persas. E Eva na
realidade era parte de Adão; Deus os separou, não como castigo, mas porque
“não é bom que o homem esteja só”. E aí há uma lição psicológica e moral da
maior importância. Ainda que fôssemos seres muito poderosos, imortais (como
o é a ameba e como promete a seus membros a Academia Brasileira de Letras),
nossa existência não seria completa. Precisamos aspirar pelo outro;
precisamos nos completar com o outro. Não podemos vencer a morte, mas
podemos buscar ânimo no amor. Amor e morte: os dois grandes temas da
literatura, que aparecem juntos, comovedoramente juntos, em Romeu e Julieta.
Aristófanes tem razão: nem sempre nos damos conta do poder
do amor. Precisamos pensar nisso. Precisamos deixar de lado o nosso
componente ameba e assumir a plenitude de nossa existência. Para nos lembrar
dessas coisas (e também para ajudar um pouco o comércio) é que existe uma
data especial. Feliz Dia dos Namorados para vocês.
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