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O Tema não é completamente novo; nós já o vimos no filme
Sr. e Sra. Smith, no qual Brad Pitt e Angelina Jolie interpretam um casal de
matadores profissionais que, de repente, se veem obrigados a um mútuo
confronto. Em Duplicidade, do diretor Tony Gilroy, a dupla de atores não é
menos charmosa: Julia Roberts e Clive Owen vivem respectivamente a ex-agente
da CIA Claire Stenwick e o ex-agente do MI6 (serviço secreto inglês) Ray
Koval. Ambos deixaram a espionagem governamental para trabalhar na lucrativa
espionagem universal, que, no caso, opõe duas gigantescas corporações
rivais, ambas atuando no ramo dos cosméticos.
Temos, pois, duas narrativas paralelas: a primeira envolve a dupla de
agentes, suas trapaças e seus conflitos amorosos, e, é claro, a que mais
interessa ao público. Mas há uma outra dupla, vivida por dois atores não
menos talentosos, Paul Giamatti e Tom Wilkinson: os presidentes das duas
empresas: Howard Tully (Wilkinson), da Burkett & Randle, e Dick Garsik (Giamatti),
da Equikrom. Não apenas competem, são inimigos mortais. De fato, o filme
começa com os dois agredindo-se fisicamente numa grotesca e espetacular
briga, travada diante dos respectivos jatinhos e dos alarmados assessores.
No filme, esta trama é secundária. Na vida real, e
sobretudo na atual conjuntura, é de longe a mais importante. A relação entre
corporações é mostrada com irônica e brutal franqueza. Tully e Garsik farão
qualquer coisa para obter a liderança do mercado. Todos os recursos que, no
passado, eram usados para espionar e sabotar o bloco comunista agora têm o
seu lugar na briga empresarial.
E isso nos remete para a crise que vivemos. Crises são
cíclicas na economia de mercado, mas esta tem componentes chocantes: através
do noticiário, descobrimos que altos executivos (de bancos e de outras
empresas) estavam ganhando fortunas fabulosas, colocando seus interesses
pessoais, sua ganância, acima das próprias empresas. A contribuição que
esses trapaceiros deram para o atual e caótico quadro econômico ainda está
por ser avaliada, e o filme é uma pequena contribuição neste sentido; mas
não há dúvida de que a questão precisa ser urgentemente discutida, como é
discutida a corrupção no setor público, seja no governo britânico, seja na
política brasileira. Mesmo porque o problema não é de hoje. Começou em 2001
com o escândalo da Enron, gigantesca corporação americana, que, através da
manipulação de balanços financeiros e de outras fraudes, escondeu dívidas de
US$ 25 bilhões; e chegou ao escândalo do financista Bernard Madoff, que,
mediante esquemas de pirâmide lesou investidores num total de US$ 50
bilhões.
Essas lições estão sendo dolorosamente aprendidas, e filmes
como Duplicidade dão uma contribuição, ainda que modesta, neste sentido.
Vidas duplas sempre acabam em confusão, seja nas relações pessoais, seja no
mundo dos negócios. Mesmo porque, mostra o filme, mentir dá muito trabalho.
E é arriscado demais.
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