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Na Faculdade de Medicina, tive um professor que era capaz
de dar uma aula inteira em francês. Francês era também o primeiro manual que
usávamos no curso médico, o tratado de anatomia de Testut-Latarjet. E era em
francês que dizíamos frases célebres, como: Dans la médécine comme dans
lamour, ni jamais, ni toujours na medicina, como no amor, nem sempre, nem
nunca.
Medicina e amor, ciência e sentimento: a cultura francesa
era um mundo, e não é de admirar a vasta influência que teve no Brasil e em
outros países, através de cientistas, como Louis Pasteur, o pai da
microbiologia, de artistas como Cézanne, de escritores como Balzac, Victor
Hugo, Flaubert, de poetas como o Baudelaire de Fleurs du Mal, com aquele
verso que sintetiza toda a angústia do fazer literário: “Hypocrite lecteur,
mon semblable, mon frère!” (800 mil referências no Google): sim, o leitor é
um hipócrita, mas é também, para o poeta, “meu semelhante, meu irmão”: uma
relação ambígua, torturante e inspiradora.
E havia ainda o aspecto político. Para minha geração de
jovens esquerdistas, a revolução francesa de 1789 (que fará 220 anos no
próximo 14 de julho) era tão importante quanto a revolução russa de 1917.
Com a mesma emoção com que entoávamos o hino da Internacional comunista (“De
pé, ó vítimas da fome”), cantávamos a Marselhesa: “Às armas, cidadãos/
formai vossos batalhões”. Uma tradição que se continuou em intelectuais como
Jean-Paul Sartre, para nós um símbolo de coragem e de coerência.
Claro, nem todos os franceses eram Sartre; durante a guerra
muitos colaboraram com os nazistas, incluindo o excepcional escritor
Louis-Ferdinand Céline. Mas isso, para nós, era apenas a exceção que
confirmava a regra. A França era a nossa pátria espiritual.
Sobretudo Paris. Ah, Paris era o imã que atraía milhares de
jovens, sobretudo os artistas, os escritores, os poetas. A “lost generation”
americana (Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, John Dos
Passos, T. S. Eliot, Gertrude Stein) ali passou boa parte dos “loucos anos
vinte”. Para nós, conhecer, Paris era um sonho. O Quartier Latin, a Torre
Eiffel, o Marais, Montmartre, o Louvre, a Saint Chapelle, o Sena, a Rive
Gauche, sem falar em lugares surpreendentes, como o cemitério dos animais em
Asnières-sur-Seine, onde estão enterrados mais de 40.000 bichos de
estimação: gatos, cachorros, coelhos, peixes, um leão, muitos deles em
túmulos belamente decorados. Paris foi durante muito tempo a capital do
mundo e conserva ainda esse mágico encanto, coisa que este notável
jornalista que é Fernando Eichenberg, e que lá mora, nos lembra
periodicamente. Aliás, tivemos e temos grandes divulgadores da cultura
francesa aqui em Porto Alegre, como os professores Jean Roche e Ketty Nahoum.
Voltando aos tempos de colégio: lembro o professor Lovato,
do Júlio de Castilhos, recitando com emoção os versos de Alfred de Vigny,
evocando a medieval batalha de Roncevaux, na qual morreu o guerreiro Roland:
“Roncevaux! Roncevaux! dans ta sombre vallée/ L’ombre du grand Roland n’est
donc pas consolée?”.
Não, no sombrio vale de Roncevaux, a sombra do grande
Roland não encontra consolo. Ele sente muita falta da “douce France”, a
França que acalentou os sonhos do nosso mundo.
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