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Políticos brasileiros estão sendo acusados de nepotismo, de
arranjar cargos públicos, ou negócios com o serviço público, para familiares
e amigos. A reação de muitos deles é de perplexidade, magoada perplexidade:
Sempre foi assim no Brasil, agora estão querendo me culpar por fazer o que
outros fizeram?.
Uma pergunta que não se justifica, mas que se explica. De
fato, o nepotismo brasileiro tem raízes históricas profundas. Baseia-se no
modelo que, numa certa fase, norteou a colonização lusa aqui: o modelo das
capitanias hereditárias. Alguém recebia, da coroa portuguesa, uma enorme
extensão de terra, que administraria como se fosse dono. O equivalente da
capitania hereditária, hoje, é o mandato parlamentar, a chefia de um órgão,
a presidência de uma empresa pública. E, na hora de escolher colaboradores,
na hora de distribuir os cargos, a regra é dada por um provérbio também de
origem lusitana: “Mateus, primeiro os teus”.
Por que Mateus? Provavelmente o nome foi escolhido porque
rima com “os teus”. Quanto à frase, pode ser cínica, mas certamente, e ao
menos até agora, era realista. Se Mateus tinha poder, deveria primeiramente
pensar nos parentes e amigos. Mesmo porque a sentença parecia justa para
aqueles que a formularam ou que a repetiam. Notem que “Mateus, primeiro os
teus” não é “Mateus, só os teus”. A primeira sentença, além de mais
eufônica, é mais razoável; os outros não estão sendo excluídos, só estão
sendo colocados mais abaixo na lista de prioridades.
Se possível, serão atendidos, diferentemente dos parentes e
amigos, que devem ser atendidos, custe o que custar (e atualmente o custo,
como estamos vendo, pode ser muito alto). Dá para duvidar de que, se certos
políticos pudessem fazê-lo, arranjariam cargos públicos? E se um cara se
candidatasse anunciando “Vote em mim e ganhe um cargo público”, alguém
duvida de que ele seria eleito? O nepotismo não é só um fenômeno político.
E nem é um costume exclusivamente brasileiro. Que o digam
as monarquias europeias, por exemplo. Ou então as famílias (ou clãs) que,
nos Estados Unidos, fazem política: os Kennedy, os Bush. Aliás, foi nos
Estados Unidos que apareceu, em 2003, um livro defendendo o nepotismo.
Chama-se In Praise of Nepotism (O Elogio do Nepotismo), de autoria do
jornalista Adam Bellow, para quem Mateus não é uma exceção: todas as
espécies tendem a proteger as crias. É algo constitutivo da natureza humana,
está em nosso genoma. Tudo que temos de fazer, diz Bellow, é combinar
nepotismo com a meritocracia. Favorecer, mas favorecer aqueles que têm um
mínimo de condições (detalhe interessante: Bellow é filho de ninguém menos
que o escritor Saul Bellow, Nobel de literatura. “Ser filho dele ajudou
muito”, confessa o jornalista).
Tudo indica que o Brasil cansou disso. O Brasil mudou. Se
perguntarmos hoje aos brasileiros “Quem deve ocupar um determinado cargo
público?”, a resposta será: a pessoa mais adequada para o cargo, selecionada
mediante critérios claros, democráticos. É bom que o Mateus pense nisso, se
ele resolver se candidatar.
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