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Aos domingos, costumo caminhar pelo bairro. Como acontece
com os caminhantes em geral, é um roteiro padrão: Protásio Alves, Parque
Farroupilha, João Telles, Vasco da Gama (uma visita sentimental ao Bom Fim
de minha infância), Cabral, Paulino Teixeira. Que é, como muitas ruas de
Porto Alegre, um lugar de contrastes. No lado direito de quem desce, belos
edifícios, calçadas conservadas. No sombrio lado esquerdo, ao contrário, um
longo muro, calçadas esburacadas, lixo na sarjeta. Eu deveria preferir a
direita (sem conotações políticas), mas uma das casas daquele lado é
guardada por um enorme e assustador cachorro, que fica enfurecido quando eu
passo e late sem parar. Só para mim, aliás; já reparei que outras pessoas
não o tiram do sono reparador. Ignoro a razão dessa ojeriza; talvez o bicho
não goste do que escrevo, talvez seja contra a prática de exercício físico.
De qualquer modo, vou pela esquerda, o que significa, de algum modo, tomar
conhecimento da realidade brasileira, nem sempre agradável e às vezes
ameaçadora.
No domingo pela manhã, eu caminhava pela Paulino Teixeira,
absolutamente deserta àquela hora, quando ouvi passos atrás de mim. Coisa
que, convenhamos, sempre nos deixa apreensivos. Assaltos, mesmo num
ensolarado domingo, não são raros em nossas cidades. Mas eu não sairia
correndo por causa disso; afinal, precisamos preservar nossa dignidade.
Continuei no meu ritmo, preparado para enfrentar qualquer ameaça. Logo fui
ultrapassado pela pessoa que vinha atrás.
Não era um assaltante, isso logo ficou claro. Tratava-se de
um rapaz de classe média, decentemente vestido, e carregando um saco
plástico – com compras, talvez. Tudo bem, portanto, mas aí aconteceu algo
surpreendente. O jovem emparelhou comigo e, sem me olhar, disse:
– Doutor Scliar, o senhor que é uma pessoa sábia, me diga:
qual o sentido da vida?
Lendo esta frase, vocês talvez pensem que se tratava de uma
pergunta bem- humorada. Este é o problema do texto: omite coisas, como, por
exemplo, o tom de voz. E o tom de voz com que foi feita a indagação estava
longe de ser jocoso. Era um questionamento dorido, amargurado, tão
amargurado que me deixou estarrecido e consternado. A reação normal seria
responder de forma casual, convencional; mas, talvez pelo fato de ter sido
chamado de doutor, senti que essa não seria a maneira mais humana de se
conduzir naquela situação. O que eu deveria fazer era estabelecer um diálogo
com o desconhecido: eu não sei qual o sentido da vida, mas vamos conversar,
talvez possamos em conjunto achar uma resposta.
O problema é que não sou um caminhante muito rápido, pelo
menos não tão rápido quando o era o jovem. No minuto seguinte, ele já estava
longe, e sem resposta para sua pergunta, se é que queria mesmo uma resposta,
se é que não queria apenas desabafar. Eu poderia correr atrás dele, mas acho
que não funcionaria. Provavelmente pensaria em assalto, sairia numa corrida
desabalada. Mesmo sem saber qual é, afinal, o sentido da vida, as pessoas
precisam salvar suas próprias vidas.
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