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Apesar do crescente materialismo de nosso mundo (ou
justamente por causa disso), apesar dos avanços da ciência (ou justamente
por causa disso), as pessoas continuam acreditando em Deus. É o que
demonstra recente enquete realizada no Brasil, Argentina e em vários países
europeus. A grande maioria das pessoas respondeu afirmativamente à pergunta:
“Você crê em Deus?”. As proporções, obviamente, variam. Em Portugal, país
tradicionalmente católico, a percentagem dos crentes é de 90%, enquanto que
na República Tcheca a cifra cai para 37%. Influência do cético e desiludido
Franz Kafka? Ou o passado comunista da antiga Checoslováquia? Neste caso,
como se explica que a Polônia, com o mesmo passado, tenha 97% de crentes?
Alguém poderia argumentar que a Polônia, como Portugal, sempre foi um reduto
do catolicismo; mas, na própria Rússia, 87% dos entrevistados declararam
acreditar em Deus. E o regime comunista lá durou sete décadas, período
durante o qual o ateísmo foi promovido ativamente (e inutilmente, como se
constata). Na escala da crença, o Brasil vem em segundo lugar, com 95% de
respostas afirmativas, bem acima da Argentina (74%). Entre os que têm menos
de 70% de crentes estão a França (herança de Voltaire e da Revolução
Francesa?), a Alemanha, o Reino Unido, a Bélgica e a Holanda.
É óbvio que os crentes não são todos iguais, que a ideia de
Deus não é a mesma para todos. Existem aqueles que fazem da crença o fato
básico de suas vidas. Existem os fundamentalistas, que procuram convencer os
outros a acreditar, chegando ao extremo do crê ou morre. E existem aqueles
que acreditam apenas por via das dúvidas, porque seguro morreu de velho.
Da mesma forma existem os ateus militantes, que, como o
biólogo Richard Dawkins, autor do controverso Deus, Um Delírio (Companhia
das Letras) escrevem livros para defender suas ideias, e existem aqueles que
podemos chamar de descrentes resignados, pessoas que não acreditam na
divindade, mas que às vezes até sentem falta disso. Não sem motivo:
trabalhos científicos mostram que, em situação de saúde grave, os crentes
evoluem melhor que os não crentes. Nessas horas, muita gente deve sentir
falta do fervor que leva outros a orarem e pedirem a Deus por sua saúde.
Isto sem falar nas necessidades que a religião propriamente dita preenche,
através dos rituais, clássicos antídotos contra a ansiedade, do senso de
comunidade, de pertinência que a pessoa religiosa sente.
Crença não é a mesma coisa que informação. Esta a gente
adquire das mais variadas maneiras, e, se a informação faz sentido, se temos
elementos para comprovar sua veracidade, nós a aceitamos. Mas a crença
muitas vezes é descrita como uma graça de origem divina que penetra na
pessoa, que a impregna, sem ser necessariamente mediada pelo raciocínio.
Crer é uma necessidade; crer em Deus, ou numa causa, ou nos
pais, ou nos amigos, ou no cônjuge, ou no guru, ou no chefe, ou nos filhos.
Crer numa vida melhor e brigar por ela. Erich Fromm, que numa época ficou
famoso tentando conciliar as teorias freudianas com as causas de esquerda,
fez uma interessante ponderação a respeito. As religiões em geral, disse
ele, não exigem que a pessoa seja praticante para garantir a salvação
externa; se a pessoa for justa, for decente, for reta, Deus a aceitará. Ao
fim e ao cabo, é aqui mesmo, na Terra, que o nosso destino é decidido, e é
aqui que – independente de qualquer enquete – temos de mostrar o que somos e
ao que viemos.
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