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Euclides da Cunha, cujo centenário de falecimento ocorre
neste dia 15, teve a vida marcada por tragédias. De uma delas foi
espectador; estamos falando, claro, da campanha de Canudos, que cobriu como
jornalista e que depois daria origem a uma das obras mais importantes da
literatura brasileira, Os Sertões. Homem culto, com sólida formação
científica (era engenheiro e bacharel em ciências e matemática), Euclides
partiu para o sertão baiano com a impressão, à época dominante, de que
Canudos era um reduto de fanáticos ignorantes, de degenerados, como então se
dizia, comandados pelo maluco conhecido como Antonio Conselheiro. Lá
chegando, porém, viu que esta ideia não correspondia inteiramente à
realidade. Sim, tratava-se de uma seita rebelde, que não aceitava o regime
republicano nem a cobrança de tributos federais (coisa que muitas pessoas,
mesmo sem pertencer a seitas, também acham exagerada). Mas reduzir aquelas
pessoas a um bando de doentes mentais era sem dúvida o resultado de uma
visão equivocada, e no famoso trecho que começa com o sertanejo é antes de
tudo um forte, Euclides revela sua admiração por uma figura estóica,
resistente e muito brasileira. Isto não impediu que a cidade (a segunda em
tamanho na Bahia de então) fosse arrasada pelas tropas e seus habitantes
trucidados. Resultado, mostra o autor, das tremendas desigualdades sociais,
políticas e culturais que reinavam, e que ainda reinam, no Brasil.
E depois veio a tragédia pessoal que, de alguma forma, tem
a ver com o Rio Grande do Sul. Depois da campanha de Canudos, e talvez
motivado por esta, Euclides viajou muito, sobretudo pelo norte do Brasil.
Longas viagens, que duravam meses, e durante as quais Anna de Assis, sua
mulher, ficava sozinha com os filhos. Resultado: ela acabou tendo um caso.
Apaixonou-se pelo jovem (17 anos) militar Dilermando de Assis, que era
porto-alegrense, mas que estava na Escola Militar do Rio de Janeiro, homem
muito bonito, alto, loiro. Tiveram dois filhos. Euclides, claro, não podia
ignorar esta ligação. Sobreveio então o trágico desfecho. No dia 15 de
agosto de 1909, um domingo, Anna e Dilermando estavam na casa deste, no
bairro da Piedade, no Rio, quando Euclides chegou, armado de um revólver que
conseguira com parentes. Bateu palmas frente ao pequeno portão e pediu para
entrar. E aí, puxando a arma, gritou que ali estava para “matar ou morrer”.
Atirou, acertando o irmão de Dilermando, Dinorah, e o próprio Dilermando.
Este, no entanto, campeão de tiro, revidou com certeira pontaria, matando
Euclides. Dinorah, jogador de futebol do Botafogo, acabou hemiplégico e,
deprimido, suicidou-se 12 anos depois. Dilermando, apesar de execrado pela
opinião pública, foi absolvido. Logo depois casou com Anna. Os dois foram
morar em Bagé, onde a casa deles tornou-se um ponto de reunião da
intelectualidade. No fim, porém, separaram-se, e ele casou com outra. Antes
disso, nova tragédia. Em 4 de julho de 1916, Euclides da Cunha Filho, “Quidinho”,
que tinha 19 anos de idade, decidiu vingar o pai. Encontrou Dilermando num
cartório do Rio de Janeiro, e alvejou-o – pelas costas. Mesmo ferido,
Dilermando mostrou de novo que era grande atirador, matando o jovem
agressor. Novo escândalo, novo julgamento, nova absolvição.
Pergunta: o que têm em comum Canudos e o assassinato de
Euclides? Em ambos os casos, vemos até onde a irracionalidade e as paixões
podem levar os seres humanos. Em ambos os casos, tragédia: tragédia nacional
e tragédia pessoal. Fica a lembrança amarga. E fica, claro, Os Sertões.
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