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A matinê de domingo à tarde era um programa ansiosamente
esperado pela turma do Bom Fim. Filmes de aventura, desenhos animados,
aquilo excitava nossa febril imaginação; acorríamos em massa aos dois
cinemas do bairro, o Baltimore, na Oswaldo Aranha, em frente ao parque, e o
Rio Branco, na Protásio Alves. Ao Baltimore, próximo à minha casa, eu ia
sozinho; quando se tratava do mais distante Rio Branco, minha mãe me levava
e me buscava.
Uma tarde o filme terminou e ela não apareceu. Tinha se
atrasado; essas coisas que aconteciam com as sobrecarregadas mães de
família. Fiquei andando pelas cercanias do Rio Branco, na Rua Miguel Tostes
(que então se chamava, e, como vocês já verão, não sem simbólica ironia, Rua
Esperança) quando ela finalmente surgiu, aflita como qualquer culpada mãe
judia. Depois do alívio que sentiu ao me ver, uma estranheza: onde estava o
meu casaco?
Eu tinha ido ao cinema usando um casaco novo,
recém-comprado. E agora estava sem ele. Antes que eu pudesse responder,
pegou-me pela mão e arrastou-me de volta para o Rio Branco, onde obviamente
eu teria esquecido o tal casaco. O cinema estava quase fechando, mas ela
conseguiu que o gerente nos deixasse entrar. Procuramos, procuramos, e nada.
Não encontramos o casaco.
Não poderíamos tê-lo encontrado. O casaco não estava ali.
Eu o tinha largado em algum ponto da Rua Esperança. Isso mesmo: o casaco,
que eu levava na mão, caíra e eu simplesmente não o juntara do chão (e
àquela altura decerto um outro guri já o estava usando).
Isso não contei à minha mãe. Não podia contar: era algo
absurdo, incompreensível – inclusive para mim próprio. Por que teria eu me
desfeito de uma peça de roupa que, para nós, família pobre, custara caro, e
que me faria falta?
Nunca descobri a resposta para essa pergunta. Talvez fosse
aquilo uma manifestação de raiva, de protesto contra minha mãe: tu não
vieste me buscar, então eu te castigo, jogando fora o casaco, como tu me
jogaste fora, ao menos por uns minutos. Mas acho que não era isso. Acho que
foi um gesto de libertação: eu me livrara do casaco, como alguém que se
desembaraça de uma carga incômoda. Sem remorso. Ao contrário de Adão que,
depois de pecar, correu em busca de uma vestimenta para seu corpo, eu não
tive o menor pudor em, ao menos parcialmente, me despir. Havia ali o germe
do protesto, da revolta juvenil. Nada de casaco, nada de imposições da moda,
nada de coisas materiais, nada de convencionalismos. Como a cobra que, sem
remorsos, livra-se do couro velho e abandona-o em qualquer lugar por onde
rasteja, assim eu estava, naquele momento, assumindo uma identidade nova. O
casaco representava o velho, o arcaico, o preconceituoso, o convencional.
Sem casaco era eu outro. Sem casaco eu era um guri livre.
Não para sempre. Ao longo da vida comprei muitos outros
casacos. Até usados: uma vez, nos Estados Unidos, adquiri numa yard sale,
aquelas minifeiras que os americanos fazem nos quintais de casa, um belo
casaco de tweed. Que horrorizou a secretária da universidade onde eu dava
aulas: mas o senhor não sabe que isso pode ser o casaco de um morto? A mim
não importava. Fazia parte de minha complexa relação com os casacos, herança
de mortos ou não.
Até hoje penso no casaco que larguei na rua Esperança.
Gostaria de encontrá-lo, de saudá-lo, olá, casaco, que saudades. Gostaria de
recuperar os sonhos que trazia no bolso. Que sonhos eram, não sei. E não tem
a mínima importância. O importante é perder. Perdendo é que a gente acha.
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