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O filme de James Cameron, um dos mais badalados da década
que se encerra, veio dar maior visibilidade a uma palavra que, nos últimos
tempos, virou um termo da moda: avatar. Na internet, são centenas de milhões
de citações. Avatar dá título a uma série de desenhos animados da
Nickelodeon, é o personagem central da série de games Ultima, designa um
álbum da banda portuguesa Blasted Mechanism e é, enfim, qualquer
representação gráfica de quem está jogando um game. O curioso é que estamos
falando de uma palavra antiquíssima, que há milênios foi introduzida pelo
hinduísmo.
Avatar vem do sânscrito, descida, e designa a chegada de
uma divindade à Terra e seu aparecimento como um ser mortal. Não é bem a
encarnação da teologia cristã, segundo a qual, em Jesus, Deus se fez carne;
é mais uma manifestação, uma representação, do deus Vishnu. Diz o Bhagavad
Gita, livro sagrado que data de dois séculos antes de Cristo, que o papel de
um avatar de Vishnu é trazer o dharma, aquilo que é certo, que é justo, à
ordem social e cósmica. São avatares de Vishnu, entre outros: Matsia, o
peixe, Kurma, a tartaruga, Varaha, o javali.
A pergunta que se impõe é: por que a metáfora do avatar
ganha, de repente, tanta projeção? Pode ser por várias razões. A primeira é
pela sensação de desordem, de anomia, como dizem os sociólogos, que as
pessoas veem na sociedade e no planeta como um todo: o crime, a corrupção, a
guerra, o terrorismo, a doença, a pobreza, o aquecimento global. Coisas que
exigem uma intervenção superior. A segunda razão é o avanço da tecnologia,
da qual o filme de Cameron é um eloquente exemplo: filmes, hoje, são muito
mais efeitos especiais do que o clássico resultado de artistas desempenhando
um papel. Filme e videogame têm muito em comum; no videogame, através dos
controles, transformamos uma figura imaginária numa projeção de nós mesmos –
num avatar.
Agora: como no caso da tradição hindu, o avatar tem poderes
especiais, e é isso que certamente nos atrai nesse gênero de diversão. Na
ficção habitual, a identificação era feita através da imaginação. Líamos um
livro e nos colocávamos no lugar do personagem. Como disse Flaubert a
respeito de seu romance famoso: “Madame Bovary sou eu”. Agora a técnica nos
faz ir mais adiante, e a identificação adquire uma dimensão sensorial, mais
intensa.
Como diversão, tudo bem. Mas será que isso é mesmo uma
resposta para os nossos problemas? Será que não deveríamos procurar em nós
mesmos a figura que realmente somos e com a qual deveríamos nos identificar,
de modo a assumirmos plenamente a nossa personalidade? Essa é a pergunta que
surge diante dessa nova conjuntura. Resta encontrar o avatar que vai
respondê-la.
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