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No Colégio Júlio de Castilhos aprendi uma canção francesa
chamada Sob as Pontes de Paris (Sous les Ponts de Paris). Dizia mais ou
menos o seguinte: “Sob as pontes de Paris/ quando desce a noite/ toda a
sorte de vagabundos se infiltra sorrateiramente/ e ficam felizes de
encontrar onde dormir”.
Porto Alegre não tem o Sena, nem as pontes de Paris. Mas
Porto Alegre tem o Arroio Dilúvio, com suas pontes e, sobretudo, Porto
Alegre tem os viadutos. E ali, como na capital francesa, muita gente procura
abrigo. No ano passado, um levantamento da Fundação de Assistência Social e
Cidadania (Fasc), órgão da Prefeitura, falava em 1200 moradores de rua. Numa
cidade com mais de um milhão de habitantes não chega a ser um número muito
grande. Mesmo muito pobres as pessoas acabam achando uma casa; nem que seja
um barraco na periferia. Morar na rua é opção, e resulta, sobretudo, de uma
vida infeliz. Quase a metade dessas pessoas tem problemas familiares; 70%
vivem sós, uma situação para a qual colaboram o alcoolismo e as drogas.
Ou seja: não é só uma questão social, é mais complicado que
isso.
Qual é a condição básica para viver, ou sobreviver, em
baixo do viaduto? Eu diria que é a indiferença. Para essas pessoas, aquilo
que incomoda a classe média em absoluto não conta. A falta de privacidade,
por exemplo. Tudo que os moradores de rua fazem é público, tudo. Eles estão
ali, comendo, ou bebendo, ou dormindo, ou fazendo as necessidades,
absolutamente indiferentes ao olhar dos outros. Há quem não consiga
conciliar o sono com barulho; não é o caso deles. Por sobre suas cabeças, no
viaduto, ruge o tráfego urbano, intensíssimo num país em que o carro se
tornou um indicador maior de progresso e de afluências. Isso não impede que
durmam (é claro que a cachaça atua como um sonífero poderoso).
Também a noção de propriedade para eles é diferente. Sim,
têm as suas coisas, que em geral cabem num carrinho de supermercado – em
todas as partes do mundo os gerentes desses estabelecimentos já devem ter
aceito com resignação o fato de que tais carrinhos serão sumariamente
confiscados. Mas, por outro lado, muitas vezes deixam essas poucas coisas
abandonadas. Na manhã do domingo passado passei sob o viaduto da Silva Só,
onde vivem muitos habitantes de rua. Detive-me a contemplar um colchão. Era
um colchão de espuma, velhíssimo, esburacado. Sobre ele, um cobertor,
igualmente velho, esburacado. Mas, e esse foi o detalhe que me impressionou,
e comoveu, o cobertor estava cuidadosamente dobrado, caprichosamente
dobrado. Pensei então no homem ou na mulher que o havia dobrado.
Ao fazê-lo, talvez num ato automático e reminiscente de uma
infância quem sabe vivida de uma maneira melhor, essa pessoa colocara um
pouco de ordem em sua vida. Uma partícula de ordem, por assim dizer, mas que
deve ter contribuído para restaurar algo da dignidade que existe em qualquer
ser humano, por mais precária que seja sua existência. Ao ver o cobertor
dobrado, a pessoa deve ter ficado satisfeita consigo mesma: eu não sou um
traste completo, eu sou alguém, ainda existe esperança para mim.
Ou seja: sob os viadutos de Porto Alegre, como sob as
pontes de Paris, a vida resiste.
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