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Na Porto Alegre da minha infância era comum a gente passar
pelas ruas tranquilas de um bairro e ver – a altas horas da noite – gente
debruçada na janela das casas. Não era curiosidade pelo que podia estar
acontecendo lá fora. Era o calor. Aquelas pessoas ansiavam por um pouco do
ar fresco que não encontravam em seus pequenos e abafados dormitórios.
Isso acabou. Em primeiro lugar, e por causa dos problemas
de segurança, ninguém se atreveria a ficar na janela da casa, mesmo
gradeada, à noite (aliás, casas agora são raras). Depois, o problema do
calor foi minorado pelos ventiladores e sobretudo pelo ar-condicionado. Os
aparelhos estão cada vez mais sofisticados e permitem às pessoas dormir com
razoável conforto, mesmo numa tórrida noite de verão.
Mas, em se tratando de casais, surge um problema, desses
que são comuns na vida conjugal. É que nem sempre marido e mulher concordam
quanto ao uso do aparelho. Ele quer ligar, ela não quer. Ele diz que precisa
de uma noite de sono reparador para trabalhar no dia seguinte, ela alega que
está resfriada. Ou então ele reclama do barulho do aparelho, mas ela diz que
é exatamente esse barulho – superpondo-se à ensurdecedora música do vizinho
– que lhe permite dormir. Ele diz que a conta da luz é um absurdo; ela diz
que todo conforto tem o seu preço.
Pronto, está instalada a polêmica. O ar pode estar
devidamente condicionado; mas estão as pessoas devidamente condicionadas a
aceitar o ar-condicionado? E como se soluciona a divergência? Uma
possibilidade, naturalmente, é dormir em quartos separados. Mas, em primeiro
lugar, é preciso existir quartos separados, o que, nos reduzidos
apartamentos de classe média nem sempre é possível. Sempre existe a
possibilidade do sofá da sala, mas, a menos que se queira acordar moído,
esta não é exatamente uma boa solução. E depois, convenhamos, a cama de
casal não é só um lugar para dormir. Além daquilo que está na cabeça dos
imorais, é também uma forma de convivência, mesmo que esta convivência
ocorra durante o sono, ou exatamente por isso: pesadelos não são raros, e é
sempre bom contar com uma presença confortadora ao nosso lado quando
despertamos de súbito, arquejantes e suando frio.
De modo que a divergência sobre o ar-condicionado é um
problema menor, e para o qual a solução será questão de tempo. A própria
tecnologia se encarregará disso. No futuro, um computador acoplado ao
aparelho apresentará ao casal um questionário com perguntas-padrão, tipo:
que temperatura você considera ideal? Que número de decibéis lhe tira o
sono? Que velocidade deve ter o fluxo de ar para que lhe pareça confortável?
Que limite você acha razoável para a conta de luz? Você acha que o amor está
acima de todas as coisas?
O computador processará esses dados e regulará o
funcionamento do aparelho de acordo com eles. Provavelmente dará certo. Pelo
menos sempre será melhor do que ficar na janela até as três da manhã,
esperando inutilmente pela brisa que não chega. Ou pelo grande amor de
nossas vidas.
Nem sempre marido e mulher concordam quanto ao uso do ar-
condicionado.
Pronto, está instalada a polêmica.
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