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Os seres humanos, segundo
Rubem Alves, são dotados de estranha capacidade: somos capazes de imaginar e
sofrer uma dor que não é nossa, uma dor que é de outro. Olhando para uma
criança triste que pede dinheiro num semáforo, a gente fica triste também.
Olhando para um velhinho solitário, a gente sente a solidão dele. Nós, seres
humanos, ao agir, temos a possibilidade de não pensar só em nós: pensamos (e
sentimos!) no outro.
É desse sentimento, a
capacidade de experimentar o sofrimento dos outros, que nasce a ética. E
esse é o sentido das palavras de Jesus, que o primeiro mandamento é “Amarás
ao teu próximo como a ti mesmo”. Não posso agir só pensando em mim. Ao agir,
tenho de me perguntar: Que é que isso que vou fazer vai fazer com o meu
próximo? Santo Agostinho, um sábio que viveu no século V, disse, resumindo a
ética: “Ama e faze o que quiseres”. Não entenda mal. Ele não está dizendo
que, se eu tiver amor, eu posso fazer tudo o que me der na telha. O que ele
está dizendo é que, se eu amar, todas as minhas ações serão determinadas
pela bondade.
E isso não se refere apenas
às pessoas. Refere-se a tudo. Um dos homens mais sensíveis nesse campo se
chamava Albert Schweitzer. Ele dizia que o mais alto princípio ético é
“reverência pela vida”. Não só os seres humanos. Tudo o que vive. As
árvores, as plantas, os insetos, os bichos. Além de amar o próximo, ser
humano, é preciso amar a natureza inteira.
Parece que, cada vez mais,
este sentimento nobre do ser humano está sendo atropelado para competição
selvagem que se instalou, por conta da competitividade de mercado, que
regula relações interpessoais e com a própria natureza, explorada e agredida
por conta de desejo insano de lucro.
Para tentar toda essa
maldade, criou-se o código de ética. Diferentes profissões tem-no registrado
em documentos, invocando-o em momentos de crise. O código de ética não pode
resumir-se em conjunto de normas e recomendações, mas está na essência de
tudo que se faz em qualquer lugar e função. São os valores que transparecem
em cada gesto, em cada atitude, em cada procedimento, em tudo que acontece.
Antigamente isto estava no
coração das pessoas. Os índios, por exemplo, não pescam mais do que precisam
para o alimento do dia. Por que tirar mais do que se precisa? Ghandi disse
que a terra tem condições de produzir o necessário para matar a fome de
todos os seres humanos, mas não o suficiente para suprir a ganância.
Acho que a expressão de
Albert Schweitzer traduz com precisão nosso compromisso como pessoas
humanas: “reverência pela vida”. Honrar isto certamente não é fácil, mas é
compromisso supremo que não precisa de assinatura com reconhecimento de
firma.
Ética são os limites que nos
impomos em razão da decência, da verdade, da justiça, da lealdade, enfim, em
razão dos ditames da consciência. Não há punição diretamente em razão de
infração ética, porque está no terreno da consciência.
Por isso, ó Código de Ética
é um balizador e não conjunto de normas do que pode ou não pode fazer.
Somente o amor, segundo o teólogo Gottfried Brakemeier, é incapaz de querer.
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