|
Era fim de tarde. Sabendo
que não conseguiria dormir logo, o coelho resolveu conversar com o tico-tico
já sonolento. “Tico-tico, como vai a vida?” “A mesma coisa de sempre”,
respondeu. “Como, a mesma coisa de sempre?”, perguntou o coelho. E o
tico-tico desabafou: “A vida está chata, triste. Sinto-me solitário. Vivo me
cuidando do bote traiçoeiro da cobra. Quando quero tomar banho no rio, o
elefante parece querer me afogar com os jatos de água que joga sobre mim.
Quando construo um ninho, o safado do pardal vai e toma conta. Quando sento
para sentir o cheiro das flores, o beija-flor já acha que quero roubar o
alimento dele. O leão ronca e berra, acha que é dono de tudo. A girafa não
vê ninguém de tão empinada que anda. O sabiá sempre foi meu amigo. Agora
está com ódio de mim. A tartaruga contou a ele que me viu comendo umas minhoquinhas onde ele
costumava almoçar. Ora bolas, a vida assim não tem graça!”.
O coelho perguntou: “Será
que a vida na floresta sempre foi assim?” O tico-tico falou: “O meu pai
conta que a vovó falava de uma vida de paz entre os animais da floresta, em
épocas passadas”. “Vida de paz?”, perguntou o coelho. “Em épocas passadas?
Mas eu ouvi a cobra falar hoje cedo, depois que tinha conseguido fugir de um
caçador, e enquanto comia um sapo: ‘Finalmente estou em paz!’. O que,
afinal, é paz?” “Não sei o que é paz”, disse o tico-tico. “Só sei que a vida
está chata e triste. E, com licença, vou dormir”.
E o tico-tico teve um sonho.
Sentado numa árvore, o tico-tico viu lá embaixo uma girafa a gemer. Num
pequeno descuido, ao colher folhas numa árvore espinhenta, a girafa fincara
um espinho na sua testa. O tico-tico voou e contou ao coelho o que vira.
Ouvindo o relato do tico-tico, o coelho falou: “Mas é difícil ajudar a
girafa. Alta e orgulhosa como ela é!...”. Mas o tico-tico sugeriu: “Vem, ao
menos para ver como ela está gemendo”.
Ao verem a pressa do coelho
e do tico-tico, até para fazerem algo diferente, outros animais correram na
mesma direção. O que fazer diante do sofrimento da girafa? – perguntavam-se
todos.
Sentada num arbusto próximo,
a pomba falou: “Tenho uma idéia. Se a girafa inclinar a cabeça, o coelho
conseguirá arrancar o espinho da testa dela”.
Mas, a girafa se inclinar?
Ela sempre andou de pescoço erguido! Ela nem sabe o que é inclinar a cabeça.
“Girafa”, disse o tico-tico,
“deita. Vem, deita no chão”. A girafa deitou-se. Com cuidado, o coelho
arrancou o espinho da testa da girafa. E o canguru ainda sugeriu: “Fica
assim mais um pouco, girafa, descansa”.
Durante o descanso, a girafa
girou os olhos e pensou. “Que interessante. Eu nunca tinha visto as penas
bonitas do sabiá e da pomba. Nunca me dei conta das mãos ágeis do coelho. E
disse mais: “Se há dois meses atrás tivéssemos pedido a ajuda dos elefantes
para carregar água, teríamos conseguido apagar o fogo que destruiu parte da
floresta em que vivia meu tio”. Sobre os outros animais, a girafa observou:
“Eu sempre achei um tico-tico um chato, picuinha! Não tivesse ele voado para
chamar o coelho, o que seria de mim? Bah, como a vida pode ser diferente!“.
Com o berro matinal do leão,
o tico-tico acordou do sono e do sonho. Ele logo lembrou: O que o coelho
perguntou ontem, antes de dormir?
Que tal a gente se inspirar
nesta estória e fazer da humildade a grande lição de nossas vidas?
|