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Osvino Toillier

Professor & Escritor

Infância e trabalho

 

A propósito de matéria veiculada no Fantástico sobre trabalho infantil nas lavouras de fumo, o assunto me inquieta, e a consciência me cobra manifestação sobre o tema.

 

A infância é a fase da vida que precisa de proteção total dos adultos, até porque a criança é integralmente dependente, necessitando de providências para alimentação e saúde. Quando não tem isso, corre sério perigo de vida inclusive, razão por que não se deixam crianças sozinhas, por não terem noção de perigo.

 

Evoluiu muito a sociedade na proteção à infância, inclusive com legislação específica, para evitar que a criança ficasse exposta à jornada de trabalho do adulto, seja de que natureza for.

 

Há que se registrar, porém, a diferença entre a realidade da infância urbana e do interior, para ser mais direto, na roça, minha origem, com muito orgulho. Lá, a criança está permanentemente com os pais e, via de regra, acompanha os pais na lides da terra. E os maiores cuidam dos menores, enquanto papai e mamãe trabalham.

 

O que mais ocupa a criança é o brincar e, não raro, ela fabrica o brinquedo com o que estiver à volta: gravetos, folhas, pedrinhas, enfim, o mundo mágico da infância dispensa sofisticação eletrônica. Confesso que essa realidade mágica vive dentro de mim com muita força e, volta-e-meia, me convida a passear pelos morros e vales, onde dormem acalentados sonhos, com vontade de declamar “Oh! que saudades eu que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”...

 

Ao mesmo tempo em que pilotávamos os mais belos sonhos, também ajudávamos os pais em pequenas tarefas, como colocar sementes de batatinha nos buracos abertos pela enxada. E que orgulho fazer isso! Em casa, eram os gravetos para começar o fogo no fogão-a-lenha no dia seguinte, dar comida para pintos e galinhas, água para os bichinhos, enfim, aquilo que se tinha condições de fazer, mas o dia sempre terminava de forma lúdica, às vezes, já noite escura, quando os pais já estavam no ritual do infalível chimarrão.

 

E assim se crescia, aprendendo a fazer pequenas tarefas, ampliadas gradativamente, sem jamais prejudicar o brinquedo e muito menos faltando à aula, prioridades absolutas nessa idade. E a glória era poder acompanhar o pai na pescaria, lembranças que ainda hoje povoam minha memória e se transformam nas mais caras lembranças da infância e da juventude.

 

Eu sei que a realidade urbana não permite nada disto, e a infância - por diversas razões - é refém da televisão, porque os pais são obrigados a trabalhar para garantir o sustento e, como criança não pode fazer nada, corre-se o risco de “a ociosidade se transformar na mãe de todos os vícios”.

 

Disto isto, reitero que a temática vem me inquietando há algum tempo, diante do desespero de pais, que se vêem absolutamente impedidos de pedir aos filhos que ajudem em pequenas tarefas domésticas.

 

Acho, salvo melhor juízo, que há equívoco nesta interpretação, porque o amor e respeito ao trabalho é preciso aprender desde cedo (vi crianças varrendo corredor na Irlanda na recente visita a escolas!), embora jamais defenda trabalho infantil, como privação de brinquedo e estudo.

 

Foi assim que crescemos, e nos tornamos pessoas de bem. Foi assim que educamos nossos filhos, e são pessoas felizes. E é assim que desejamos possam crescer nossos netos, aprendendo, desde cedo, a valorizar o trabalho. Será isto ofensa à dignidade humana e à lei?

 

 E-MAIL DO COLUNISTA: osvino@sinepe-rs.org.br

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SulMix - Osvino Toillier... Professor & Escritor... Formado em Letras e Pós-Graduado em Administração Escolar e Gestão pela Qualidade...

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