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A propósito de matéria
veiculada no Fantástico sobre trabalho infantil nas lavouras de fumo, o
assunto me inquieta, e a consciência me cobra manifestação sobre o tema.
A infância é a fase da vida
que precisa de proteção total dos adultos, até porque a criança é
integralmente dependente, necessitando de providências para alimentação e
saúde. Quando não tem isso, corre sério perigo de vida inclusive, razão por
que não se deixam crianças sozinhas, por não terem noção de perigo.
Evoluiu muito a sociedade na
proteção à infância, inclusive com legislação específica, para evitar que a
criança ficasse exposta à jornada de trabalho do adulto, seja de que
natureza for.
Há que se registrar, porém,
a diferença entre a realidade da infância urbana e do interior, para ser
mais direto, na roça, minha origem, com muito orgulho. Lá, a criança está
permanentemente com os pais e, via de regra, acompanha os pais na lides da
terra. E os maiores cuidam dos menores, enquanto papai e mamãe trabalham.
O que mais ocupa a criança é
o brincar e, não raro, ela fabrica o brinquedo com o que estiver à volta:
gravetos, folhas, pedrinhas, enfim, o mundo mágico da infância dispensa
sofisticação eletrônica. Confesso que essa realidade mágica vive dentro de
mim com muita força e, volta-e-meia, me convida a passear pelos morros e
vales, onde dormem acalentados sonhos, com vontade de declamar “Oh! que
saudades eu que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida,
que os anos não trazem mais”...
Ao mesmo tempo em que
pilotávamos os mais belos sonhos, também ajudávamos os pais em pequenas
tarefas, como colocar sementes de batatinha nos buracos abertos pela enxada.
E que orgulho fazer isso! Em casa, eram os gravetos para começar o fogo no
fogão-a-lenha no dia seguinte, dar comida para pintos e galinhas, água para
os bichinhos, enfim, aquilo que se tinha condições de fazer, mas o dia
sempre terminava de forma lúdica, às vezes, já noite escura, quando os pais
já estavam no ritual do infalível chimarrão.
E assim se crescia,
aprendendo a fazer pequenas tarefas, ampliadas gradativamente, sem jamais
prejudicar o brinquedo e muito menos faltando à aula, prioridades absolutas
nessa idade. E a glória era poder acompanhar o pai na pescaria, lembranças
que ainda hoje povoam minha memória e se transformam nas mais caras
lembranças da infância e da juventude.
Eu sei que a realidade
urbana não permite nada disto, e a infância - por diversas razões - é refém
da televisão, porque os pais são obrigados a trabalhar para garantir o
sustento e, como criança não pode fazer nada, corre-se o risco de “a
ociosidade se transformar na mãe de todos os vícios”.
Disto isto, reitero que a
temática vem me inquietando há algum tempo, diante do desespero de pais, que
se vêem absolutamente impedidos de pedir aos filhos que ajudem em pequenas
tarefas domésticas.
Acho, salvo melhor juízo,
que há equívoco nesta interpretação, porque o amor e respeito ao trabalho é
preciso aprender desde cedo (vi crianças varrendo corredor na Irlanda na
recente visita a escolas!), embora jamais defenda trabalho infantil, como
privação de brinquedo e estudo.
Foi assim que crescemos, e
nos tornamos pessoas de bem. Foi assim que educamos nossos filhos, e são
pessoas felizes. E é assim que desejamos possam crescer nossos netos,
aprendendo, desde cedo, a valorizar o trabalho. Será isto ofensa à dignidade
humana e à lei?
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