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Não é de hoje que me debruço cuidadosamente sobre a palavra,
tentando descobrir-lhe um pouco mais da magia e encanto. E também, perigos.
Nascemos com linguagem ininteligível, e a aprendizagem do
código lingüístico é desafio dos mais complexos com que cada ser humano se
defronta. E a expectativa dos pais, principalmente, é com as primeiras
palavras, balbuciadas (bom termo, não?) de forma espontânea e engraçada.
Quem terá o privilégio: “pa-pai” ou “ma-mãe?”
Depois vai se evoluindo pela freqüência racional da
linguagem, que se buscará aprimorar ao longo da vida. Talvez o ápice seja
quando se substitui a “falação” pelo silêncio e capacidade de ouvir,
demarcando o tempo da sabedoria.
E à medida que se decide ouvir mais, acaba-se constatando
quando as palavras são mal-usadas, criam-se ruídos em vez de comunicação. A
beleza e poesia da palavra se transformam em verborragia insuportável, com o
dedo na metralhadora giratória, passando de um assunto para outro, como se
tivesse engolido um rádio...
A palavra precisa ser saboreada como um gole de vinho,
degustada, pensada, amada, deixando que ela tome conta do corpo. É isso
mesmo: as palavras precisam alojar-se no corpo, porque é ele quem fala. Não
é o som simplesmente que se ouve que comunica, mas é o corpo.
Diz um provérbio chinês que “a língua é o leme da sua
influência. ”E a Bíblia, em Provérbios 21:23, aconselha: “O que guarda a
boca e a língua, guarda a sua alma das angústias”.
Vivemos, no dizer do psiquiatra Rogério Zimpel, “overdose de
palavras, sons, ruídos e outros estímulos que não poupam nenhum dos nossos
sentidos. É fundamental desintoxicá-los”.
É lamentável o que fazemos com a maravilhosa bênção da
linguagem. Cada frase deveria ser vista como nota musical da partitura de
uma sinfonia. Já imaginou que beleza seria o mundo? As palavras ditas com o
cuidado de quem compõe uma sinfonia!
Será que não estaria aí o remédio contra a violência, que se
instalou em nosso mundo de forma avassaladora? E a palavra foi dada ao ser
humano como instrumento da paz. Para construir pontes, unir pessoas e
territórios pela linguagem do amor.
Já sentiu como palavras amorosas e repletas de afeto são
carinho quente pra gente, especialmente quando se está fragilizado
emocionalmente. E esta é a grande carência de hoje. Ninguém mais escuta,
todo mundo só quer falar. E pior, só de si. “Der grosse Ich”, como se diz no
alemão: “o grande Eu”.
Quando se atinge a idade em que o quase indomável desejo de
falar de si abre generoso espaço para ouvir o outro, então teremos chegado
ao tempo - e talvez templo! - da sabedoria, quando nos despojamos da
imponência e arrogância, e nos revestimos com o manto da simplicidade e da
pequenez, próprio de quem aprendeu a suprema lição da vida.
O currículo escolar deveria ensinar a silenciar para aprender
a ouvir, mas, infelizmente, a lição é difícil de ser aprendida pelos
adultos. Já imaginou se a criança nascesse sabendo falar? A natureza é
sábia: precisamos de longo tempo para aprendê-lo, senão a tragédia seria
ainda maior!
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