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Em nosso tempo tudo se acelera, e se transfere a fantástica
evolução dos produtos para as relações pessoais, substituindo a
espontaneidade pela cobrança da perfeição e velocidade.
É importante a gente se dar conta – ouvi isto do casal Mário
e Diana Corso, psiquiatras, em noite memorável de Conversa com o Professor –
que a vida é jogada no presente e precisamos de tempo de digestão. Tudo ao
nosso redor se acelera, mas os processos mentais, não. Segundo eles, a vida
é o processamento das vivências mentais desde a infância, e a gente não pode
querer apressar o amadurecimento.
O que se registra hoje em dia é a paranóia de muitos pais em
relação aos filhos, numa visão alucinada de que é preciso aprender tudo o
mais cedo possível, abortando a infância, substituindo-a por agenda de
compromissos, transformando crianças em mini-executivos.
Talvez isto explique um pouco a percepção de nosso tempo,
plugada em um milhão de coisas, mas vazia de significados, porque não teve
tempo de viver a poesia da infância, com todo o seu simbolismo,
espontaneidade, candura, aprendendo com os pais e a família, patrimônio
sagrado de nossas emoções e afetos.
É bom a gente se dar conta de que aí talvez esteja o porão
que visitamos em busca de memórias perdidas, fantasias infantis, enfim, o
arquivo secreto de nossas emoções. O desespero surge quando está vazio, e só
encontramos fantasmas, que apavoram e se transformam em ameaça à pretendida
felicidade.
Interessante observar que o mundo primitivo, que corre o
risco de ser descartado pela pós-modernidade, tem valor imensurável, razão
porque, no Velho Mundo, o aporte da tecnologia não se absolutiza, e se
preservam práticas consagradas desde tempos imemoriais como obrigar o aluno
– especificamente na França - a escrever a mão trabalhos escolares, no
mínimo, duas horas por dia.
A recomendação de especialista em neurociência é de que se
procure reduzir o número de horas de crianças diante da televisão e do
computador, porque o excesso de imagem estaria inibindo o desenvolvimento de
certas áreas no cérebro, particularmente no que diz respeito à linguagem.
Parece que estamos recebendo recado claro de que a crescente
velocidade que equipamentos cada vez mais sofisticados nos alcançam não
responde às inquietações do coração humano, que continua com seus batimentos
habituais, não podendo ser apressado, sob pena de sérios riscos.
Da mesma forma, não há porque acelerar o desenvolvimento
infantil, atropelando etapas, tirando espaço e tempo para o brinquedo,
absolutamente fundamental para a elaboração das estruturas mentais da
criança.
Talvez seja recomendável que se dê um tempo para repensar
algumas práticas que estão se instalando, e se tire o pé do acelerador para
reaprender a curtir a vida, apreciar a beleza que nos rodeia e deixar-se
encantar pelo céu estrelado, a flor que desabrocha, as traquinices de uma
criança em cujo rosto cabem todos os universos.
É preciso redescobrir a vida que vale a pena.
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