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Cada vez mais nos deixamos cercar por coisas ao nosso
redor, escaladas para responder às reais necessidades de cada ser humano. Se
temos ou não necessidade de determinado objeto, não somos nós quem decide.
Primeiro desenvolve-se o objeto para depois criar a necessidade. Já se deu
conta disso?
É bom dar-se conta de que estamos nos tornando reféns dos
objetos de desejo cuja escolha outros fazem por nós. E o ataque mais furioso
acontece no final do ano, atropelando os mais belos e puros sentimentos que
a época enseja, porque é
hora de comprar, trocar,
crédito não vai faltar. Pagar? Isto é preocupação só do ano que vem. Espécie
de hipnose, para a qual é preciso chamar à atenção, porque há pessoas que
realmente compram o que não precisam, se endividam, porque a tentação é
demais. Depois, bem, depois vem o arrependimento, e o belo sonho vira
pesadelo.
Rosely Sayão, colunista da
Folha de São Paulo e
conhecida conferencista, aborda este tema, alertando para o fato de que as
crianças são “as grandes vítimas do consumo exagerado. Não são elas que
querem ter mais e mais, já que os adultos entram nessa para pra valer, mas
são elas que estão mais sujeitas ao imperativo do ter, já que ainda não
conseguem avaliar criticamente as demandas nelas introduzidas”. E o pior,
continua a psicóloga: “A maioria ganha tantas coisas sem motivo que passam a
considerar o presente como algo trivial”. É uma pena, porque se perde a
essência do sentido do presente, para aprender a esperar por ele ou ser
surpreendido quando realmente é um momento importante.
No fundo, estamos dessacralizando momentos especiais, para
tornar tudo trivial, corriqueiro, o importante é que você compre, e aí
parece que o mundo está legal e em paz. Ledo engano. Coisas não preenchem o
vazio interior.
Parece reflexão na contramão do que rola ao nosso redor,
mas é necessário desenvolver capacidade
de percepção de demandas
sutis com que desavisadamente somos envolvidos e, quando nos damos conta,
estamos comprometidos com a nova ordem das coisas.
É tão lindo dar e receber presente, não? A espera pelas
datas especiais, como o dia do aniversário, quando há natural expectativa
por um presente, mesmo que seja pequeno e simples. Na infância e
adolescência, os aniversários em nossa família eram celebrados com muito
amor, sem presente material, por não haver condições financeiras para isso,
mas a festa era a vida.
Que não se perca a alegria do presente, mas não se permita
transformá-lo simplesmente em objeto do desejo. E quando se der um presente,
mesmo fora de qualquer data especial, que seja como expressão de que a
pessoa foi lembrada com carinho, que pode ser perfeitamente através de
flores, cartão ou então algo que deixe a pessoa feliz. E que as coisas
jamais estejam desacompanhadas de afeto e amor. Na verdade, cada um se dá de
presente ao outro através do gesto de presentear.
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