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A vida é um espetáculo cujo protagonista é cada um de nós.
Em síntese, é isto: ninguém pode vivê-la em nosso lugar. O máximo que
podemos é conceder procuração para alguém agir em nosso lugar, nos
representar, mas com demarcação clara de limites.
Mas, antes que outro assunto me pegue nas curvas da
reflexão, quero demarcar o terreno da temática de hoje: opinião pública – o
tirano que não ousamos desafiar. Ou será que não é assim?
Um dos desafios da vida é a autenticidade, ou seja, a
capacidade de não renunciar a nós mesmos, não abrir mão de nossas posições,
embora não se engessando na intransigência, o que também é perigoso e
desaconselhável. Conseguir transitar pela vida à base dos valores que
comungamos é desafio complexo, exige maturidade, aprendizagem permanente e
adequação a novas realidades.
Talvez a grande habilidade esteja na capacidade de
interagir com os interlocutores sem perdê-los por nossa intransigência, mas
também não nos dobrarmos diante de linhas de reflexão ou argumentos com que
não concordamos. Engolir algo que vá de encontro aos nossos princípios faz
muito mal, abala a estrutura emocional. Por isso, é preferível dizer
claramente o que se pensa, mesmo que isto custe algum desgaste do que calar.
Não vivemos para fazer o jogo da opinião pública, até
porque isto pode ser muito perigoso. O jogo que Pilatos fez custou a vida de
um inocente. Revelou-se um líder fraco, fez o jogo da multidão, para ficar
de bem com os poderosos.
Quais são as concessões que nós fazemos diante do poder? Ou
temos coragem de colocar nosso prestígio em risco diante do clamor da
consciência? “O que os outros vão dizer” é a pergunta que certamente ecoa
em nossos ouvidos, pelo que aprendemos desde crianças. Talvez devêssemos
ensinar para nossos filhos – pelos valores que lhes ensinamos - que nunca
voltem para casa com atitudes de que venham a se envergonhar e se arrepender
mais tarde.
É claro que é preciso olhar para um conjunto de elementos
que a sociedade nos coloca (não impõe), para os quais é preciso se ajustar,
como vestir-se de acordo com o evento, linguagem adequada à ocasião, postura
conveniente à cultura, enfim, um universo de circunstâncias que exigem
cuidados especiais.
O importante é não capitular simplesmente diante da opinião
pública em determinada circunstância, porque as pessoas que nos têm como
referência ficarão confusas e perderão a confiança. Isto vale especialmente
para os pais e professores, referenciais de identidade e de valores na
sociedade, hoje confusa diante das brutais transformações.
É bom se dar conta de que a pós-modernidade líquida não
conseguirá abolir os valores sagrados do ser humano: identidade, dignidade,
decência, honestidade, compromisso com a palavra empenhada, que a opinião
pública também saberá reconhecer. Esta é a nossa melhor carteira de
identidade.
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