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É simplesmente encantador observar a criança brincando: o
mundo da imaginação recriando realidade, construção de cenários, diálogo com
os brinquedos, ausência de monotonia por conta da criatividade permanente,
enfim, quanto material de inspiração para o adulto, tantas vezes contagiado
pela desmotivação e diante de dificuldades.
A criança é um mundo à parte, que transforma a casa, mexe
com a rotina e, querendo ou não, desacomoda o adulto, não poucas vezes
desajeitado e confuso diante das demandas infantis. A rápida e constante
troca de cenários deixa o adulto atrapalhado, porque precisa submeter-se a
rápidas mudanças de freqüência, tão fora de seu padrão.
Tenho me dedicado – e deliciado – a observar o
comportamento de uma criança de dois anos que me permite revisitar
a infância de forma privilegiada e fico tentando recordar a mesma fase na vida
dos filhos e não consigo encontrar na memória semelhantes atitudes. E fico
me perguntando se teria sido tão pacata ou se realmente
a vida de hoje produz outra infância.
É claro que o tempo é outro, o mundo de possibilidades e
incentivos certamente contribui para outro ser humano, mas sempre é uma
criança, na mais pura e original acepção do termo. Não tem essa de ser mais
ou menos inteligente, trata-se apenas de nascer e viver com outros
estímulos. O fato de aos dois anos escolher um filme e colocar no aparelho,
rodar, aumentar ou diminuir o volume parece meio precoce, mas é simplesmente
influência do meio. Ninguém ensinou isto, é decorrência do meio.
Mas percebo que o afeto continua sendo o centro da vida da
criança. Sempre de novo a velha máxima: “Dá à criança tua mão, e ela te dará
seu coração”. Nada mais comovente do que a espontaneidade e amor sem limites
de uma criança. “A minha mãe, o meu pai, a minha vovó, o meu vovô” são
identificações do universo mágico da criança.
E as aprendizagens são contínuas e intensas. Palavras novas
que brotam, fragmentos de frase que se consolidam, sorrisos encantadores,
abraços que são verdadeiros amassos e o desejo insaciável de brincar,
arrastar o adulto para brincar-de-esconder, enfim, ajudá-la a elaborar o
mundo com suas próprias vivências, sem ser infantilizada pelo adulto. E ela
nos deixa um recado claro: “não me deixa com minhas próprias circunstâncias,
deixa eu crescer contigo, não me confina no meu próprio mundo, eu preciso
evoluir”.
Com a natural curiosidade da criança, é estranho que, mais
tarde, perca o interesse por aprender, de reinventar as coisas. Não será que
muitas vezes queremos ensinar coisas prontas para ela? Desconfio que sim. E
isto não funciona com a criança, porque ela não aceita paradigmas prontos.
Precisa fazer do jeito dela, reinventar a receita do bolo e aprender a fazer
com a vovó. E tem coisa mais gostosa do que o bolo da vovó? Duvido!
Perguntem pra Manuela.
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