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Os ensinamentos dos
padres do deserto, que viviam no mosteiro de Sceta, em Alexandria, tem sido
uma constante fonte de inspiração para diversas gerações (e para esta
coluna). Aqui vão mais algumas histórias:
A cidade do outro
lado
Um eremita do mosteiro
de Sceta se aproximou do Abade Teodoro:
- Sei exatamente qual o
objetivo da vida. Sei o que Deus pede ao homem, e conheço a melhor maneira
de servi-Lo. E, mesmo assim, sou incapaz de fazer aquilo tudo que devia
estar fazendo para servir ao Senhor.
O abade Teodoro ficou
um longo tempo em silencio. Finalmente disse:
- Você sabe que existe
uma cidade do outro lado do oceano. Mas ainda não encontrou o navio, não
colocou sua bagagem a bordo, e não cruzou o mar. Por que ficar comentando
como ela é, ou como devemos caminhar por suas ruas?
“Saber o objetivo da
vida, ou conhecer a melhor maneira de servir ao Senhor, não basta. Coloque
em prática o que você está pensando, e o caminho se mostrará por si mesmo”.
Comporte-se como os
outros
O Abade Pastor
caminhava com um monge de Sceta, quando foram convidados para comer. O dono
da casa, honrado pela presença dos padres, mandou servir o que havia de
melhor.
Entretanto, o monge
estava no período de jejum; assim que a comida chegou, pegou uma ervilha, e
mastigou-a lentamente. Só comeu esta ervilha, durante todo o jantar.
Na saída, o abade
Pastor chamou-o:
- Irmão, quando for
visitar alguém, não torne a sua santidade uma ofensa. Da próxima vez que
estiver em jejum, não aceite convites para jantar.
O monge entendeu o que
o abade Pastor dizia. A partir daí, sempre que estava com outras pessoas, se
comportava como elas.
O trabalho na
lavoura
O rapaz cruzou o
deserto, e chegou finalmente ao mosteiro de Sceta, perto de Alexandria. Ali,
pediu para assistir uma das palestras do abade - e recebeu permissão.
Naquela tarde, o abade
discorreu sobre a importância do trabalho na lavoura.
No final da palestra, o
rapaz disse a um dos monges:
- Fiquei muito
impressionado. Achei que ia encontrar um sermão iluminado sobre as virtudes
e os pecados, e o abade só falava de tomates, irrigação, e coisas assim. Do
lugar onde venho, todos acreditam que Deus é misericórdia: basta rezar.
O monge sorriu, e
respondeu:
- Aqui,nós acreditamos
que Deus já fez a parte Dele; agora cabe a nós continuar o processo.
Julgando o meu
próximo
Um dos monges de Sceta
cometeu uma falta grave, e chamaram o ermitão mais sábio para que pudesse
julgá-la.
O ermitão se recusou,
mas insistiram tanto, que ele terminou por ir. Chegou ali carreando nas
costas um balde furado, de onde escorria areia.
- Vim julgar meu
próximo - disse o ermitão para o superior do convento. - Meus pecados estão
escorrendo detrás de mim, como a areia escorre deste balde. Mas, como não
olho para trás, e não me dou conta dos meus próprios pecados, fui chamado
para julgar meu próximo!
Os monges desistiram da
punição na mesma hora.
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