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Talvez seja apenas outra dessas lendas urbanas que contam
histórias fantásticas e inverossímeis a respeito de mendigos. Esta conta a
história do Nestor, atual personagem número 1 da Praça da Alfândega. Ele
sucedeu o antológico Penúltimo Caudilho, que foi varrer os quartéis da Rua
da Praia. A praça andou meio sem dono. Foi-se também aquela senhora volumosa
que agenciava as moças faceiras. Foi-se também a inocência dos jogos de
damas, nos tabuleiros da Capitão Montanha. Deram lugar ao informal Cassino
Alfândega, ironicamente vizinho do grande cassino do Governo. No horário de
lagartear, após o almoço, Peru Louco e Tio Funério reinavam absolutos.
Porém, faltava alguém que tomasse conta da praça em tempo integral. Um
residente, portanto.
Nestor foi se chegando, durante o ocaso do Penúltimo, faz uns
três anos. Começou com o característico me-dá-me-dá. Desfia uma interminável
súplica, digna de derrotar uma equipe de beatas disputando uma novena
olímpica. Ele é um sujeito moreno e calvo, que reparte as atenções das suas
duas mulheres, uma jovem, outra mais castigada pela vida na rua. Com o
tempo, Nestor ficou. Morar nessa praça, apresenta vantagens.
O povo que circula por lá é mais abonado, pertence à classe
média. São os melhores para dar esmolas. Sempre sobra um pouco, ao contrário
do que acontece com os pobres, e o coração deles é um pouco mais mole do que
o dos ricos. Especialmente o das mulheres que vestem taieur claro. Azul
claro é o melhor. São as vítimas preferidas para o achaque do Nestor. Ele
gruda ao lado delas, que tentam se equilibrar sobre os sapatos de salto
alto, enfiados nas frestas daquele infame calçamento da praça. Dão qualquer
coisa, para se livrarem dele. Assim ele toca a vida, provendo casa e comida
para as suas famílias. A casa varia de lugar, conforme sopra o vento.
Agora, vamos à lenda. Ela reza que o Nestor foi um empresário
de sucesso, que sofreu grave acidente, em 1985. Ele havia angariado tal
capital, que já se permitia viver de rendas, sem necessariamente tricotar.
Nestor estava de malas prontas para viver em Bombinhas, Santa Catarina.
Praia pequena, calma, com natureza exuberante, muito diferente da badalação
que destruía o paraíso da Ilha de Santa Catarina. Nestor havia investido
pesado no mercado de telecomunicações. Ele comprou mais de cem linhas
telefônicas, algumas por quatro mil dólares, para viver da renda do aluguel.
Homem calejado, no ramo dos negócios, ele investiu outro tanto na compra de
uma rede de locadoras de fitas de videocassete. O homem estaria garantido,
até o fim dos seus dias.
Então, veio o acidente, e Nestor ficou em coma durante os 20
anos seguintes. O maior azar dele foi acordar, finalmente. Havia perdido a
mulher, que juntou os trapos com alguém que não passava os dias e as noites
dormindo. Foi assim, do nada, que Nestor se viu acordado. Da centena de
linhas telefônicas, sobraram as contas pendentes. A rede de locadoras
quebrou antes da virada do milênio. Os antigos amigos fugiram dele. Nestor
foi previdente, e guardou um milhão de dólares. Numa conta em um banco
argentino. Da ex-mulher só ouviu uma frase:
- Eu vou enchê-lo de formigas, num canteiro de urtigas! –
gritava ela, enquanto lhe dava guarda-chuvadas a rodo.
Só e desiludido, Nestor se mandou para a sua nostálgica
Bombinhas. Viveria feito hippie, na beira da praia. Voltou, a pé. E na
praça, conquistou novos amores.
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