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Aquele telefone da Sibéria tocou. Ele ficava mudo, horas,
dias, semanas e meses. Porém, tocou. Eu nem sabia que ele estava
funcionando, pois se calara há muito tempo. Repentinamente, tocou. Eu não
percebi logo o toque, pois não estava acostumado com ele. Pensei tratar-se
de telefone de vizinho. Mas não, era o meu. Demorei a encontrá-lo. Daí que
perdi a chamada. Era do estrangeiro. Fiquei muito preocupado, pois tenho
parente no estrangeiro. Seriam más notícias? Para ligarem para aquele
número, que nem mesmo eu sei, boa coisa não seria. Perdida a ligação, como
saberia?
Liguei para minha parenta. Não havia sido ela. Quem seria? Há
golpe do falso seqüestro em outros países, ou é um privilégio daqui? Ele
tocou, novamente. Corri para atender. Tarde demais.
Ele tocou às cinco da matina. Cheguei tarde, novamente. Quem
raios ligaria às cinco da matina, se não fosse algo realmente importante?
Permaneci em semivigília, esperando que o telefone da Sibéria tocasse
novamente. Às sete horas, me rendi. Babei direto. A posição de vigília deu
lugar à cabeça pendente, escorrendo baba. Acordei a tempo. O estranho
telefone tocava novamente. Cheguei a tempo de atendê-lo. Ansioso, gritei
alô. Um alô que não conseguia disfarçar a ansiedade. Quem seria, o que
seria, por que seria? Só consegui ouvir o "- Bonjour, monsieur", nada mais.
Após, veio o tom de queda da ligação. França, Bélgica, Luxemburgo, Canadá,
Guiana, de onde diabos seria?
Revisei minha lista de contatos na França, e reduzi minha
lista a apenas uma possível candidata. Uma única pessoa que mora na França.
Ela mora em Villefranche-sur-Mer, ao lado de Nice, na Côte D'Azur, antes de
se chegar a Mônaco. Um lugar onde devem ter jogado anilina no mar, de tão
azul que é. Seria ela? Precisaria de ajuda do Brasil? Ou seria aquele
simpático casal de Reims, que um dia me ajudou? Pensando bem, não poderiam
ser eles. Ninguém tem o meu número da Sibéria.
Esqueci-me do assunto, até que o telefone da Sibéria tocou
novamente, às cinco horas de ontem. É muito elegante ser acordado em
francês. Contudo, esperava dormir um pouco mais, especialmente no sábado.
Atendi, e ouvi algo mais, dessa vez. "- Bonjour, monsieur, vous avez oublié...".
A ligação caiu novamente. Corri ao meu livro de Francês Para Telefone da
Sibéria e descobri que a gentil senhora francófona me avisava de que eu
havia esquecido algo. Ficaria grato, se ela me dissesse o que eu havia
esquecido, e onde.
De súbito, percebi que eu estava bancando o idiota, coisa que
eu faria o tempo todo, segundo minha mulher. O que eu teria a ver com
aquilo? Aquela mulher que fosse francofonar com outro. Resolvi ignorar
completamente o assunto, até que o telefone da Sibéria tocou novamente. "-
Bonjour, monsieur, vous avez oublié votre brosse à dents". Assim, tudo
mudou. Desfrancofonando a frase, descobri que eu havia esquecido minha
escova de dentes. Em Mônaco. Graças ao meu dicionário para viajantes,
consegui traduzir quase tudo. Escapou apenas uma palavra. O que será
Catchiolá?
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