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Entre outros vícios, como o de contar botões, tenho o hábito
do jogo. Faço uma fezinha, na Mega Sena, duas vezes por semana. Jogo todas
as quartas e sextas-feiras, três bilhetes "no escuro". Eu comprava os
bilhetes, na loja de uma senhora chinesa, através de uma monótona rotina.
Entrava na loja, pedia três Mega Senas e uma Quina de cinqüenta centavos,
para arredondar o valor em cinco reais. Ela escolhia os bilhetes, e tentava
me vender um café de máquina. Eu recusava, alegando que só tomaria o café
quando acertasse na loteria. Porém, algo mudou, faz umas duas semanas.
Os numerais são estranhos, em outras línguas. Os antigos
romanos gastariam todo o alfabeto, pela falta do zero. Quem for aprender o
idioma alemão, logo perceberá uma diferença enorme nos numerais, quando
comparados com os numerais em português. Vinte e um vira einundzwanzig – um
e vinte, literalmente. As unidades precedem as dezenas, em alemão. Para
quebrar qualquer tentativa de se estabelecer uma regra lógica, os milhares
precedem as centenas, que precedem as unidades, que, por sua vez, precedem
as dezenas. Para complicar um pouco mais, as dezenas de centenas são
utilizadas como no idioma inglês, quando se tratam de datas. Mil novecentos
e vinte e um vira algo que, traduzido literalmente para o alemão, fica
dezenove centenas, um e vinte. No idioma inglês ficaria um misto dos dois,
traduzido como dezenove centenas, vinte e um.
Os italianos e os alemães escrevem numerais por extenso que
tiram o fôlego de qualquer um, pois não colocam espaços entre as palavras
que compõem o número. Três mil e novecentos e oitenta e sete vira um desses
dois horrores, quando traduzido para o italiano ou o alemão,
respectivamente: tremilanovecentoottantasette e
dreitausendsechshundertsiebenundachzig. Com milhões e bilhões ficam ainda
melhores.
Eu pensei que o pior vinha da França. Por alguma razão, eles
só foram até o sessenta, com as dezenas faladas. O que gera inevitáveis
confusões quando um francês informa o preço de alguma coisa a quem não
conhece os numerais deles. Setenta, por exemplo, é soixante dix – sessenta
dez. Noventa, vira quatre vingt dix – quatro vinte dez. Há quem atribua essa
adoração pelo vinte a um sistema numérico céltico baseado nesse número.
Creio que ocorreu alguma reforma numérica na China, pois a
dona da loja, na qual compro meus bilhetes, não vende mais três bilhetes,
desde que a aposta subiu de R$ 1,50 para R$ 1,75. Pareceu-me que o número
três sumiu. Desde que aos três bilhetes passaram a custar R$ 5,25,
dificultando o troco, ela vende um, dois ou quatlo – Yi, er, si. Tlês – San
- não! Tlês, só tomando um café.
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