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Linoberto jogou-se na cadeira do Armazém, Bar e Borracharia
12 Irmãos, no Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média. O
sétimo irmão, dos 12, trouxe o copo da "boa". Enquanto Linoberto tomava o
primeiro gole, não pode deixar de ver que o Estranho estava sentado na mesa
da direita. Era tudo que ele não queria ver, após um dia na lavoura.
Sabia-se lá o que o Governo havia aprontado agora. Coisa boa,
não havia de ser. O Estranho era o único estranho que sabia chegar até o
Lado de Cá do Cinamomo, município mais isolado do País, desde que as forças
progressistas assumiram as estradas. O Estranho chegara lá por engano, pela
primeira vez, após ter violado em muitos decigramas a Tolerância Zero com o
álcool. Desde aquele famigerado dia, sempre que o Governo desejava impor uma
nova lei, enviava o Estranho.
Linoberto pensava no que seria, desta vez. Alguma nova lei
besta, com certeza. Seus pensamentos foram interrompidos pela aproximação do
Estranho, trazendo sua cadeira e seu copo da "boa". Após seis visitas, ele
já tolerava a pinga com carqueja e losna, que causava arrepios nas narinas
dos inexperientes. O Estranho chegou, sorridente:
- Boa tarde, Linoberto! Como tem passado? – havia um estranho
brilho de satisfação no olhar dele.
- Estive ótimo, até a sua chegada! – disse o ressabiado
Linoberto.
- Quanta desconfiança! – disse o homem, sorrindo marotamente.
- Qual é a nova Besta lex, sed Lex? – A lei é besta, mas é a
lei.
- Calma, Linoberto. Desta vez venho como representante do
Ministério da Educação e Cultura. Estamos iniciando um programa de difusão
da ciência, chamado Ciência Democrática Popular Revolucionária Campesina
Operária. Levaremos os segredos do Universo, antes propriedade das elites,
para todo o povo.
- Qual é a bomba, desta vez? – perguntou-lhe Linoberto,
enquanto observava, com o canto do olho, um sujeito mais estranho, parado ao
lado da camionete do Governo do Outro Lado do Cinamomo - a União, os Estados
e todos os outros os outros municípios do País. O sujeito mostrava o olhar
bestificado de quem nunca vira uma vaca, que, por sinal, mugia. Ele tentava
medi-la, como se fosse a descoberta do século.
- Não é bomba, creia-me, Linoberto. Estamos apenas difundindo
conhecimentos científicos para a população menos esclarecida.
- Está nos chamando de burros? – ofendeu-se Linoberto,
enquanto a vaca mugia.
- Não, pelo amor de Deus, me referia a quem não tem tanto
acesso à informação!
- Tudo bem, mas qual é a idéia?
- Bem, falei com o Sétimo – sétimo dos 12 Irmãos – que está
exercendo o mandado de Prefeito, e ele me falou que você está acumulando
também a Secretaria da Educação, Cultura e Entretenimento, além das de Obras
e Fazenda, do Município do Lado de Cá do Cinamomo. Pois bem, trouxemos o
Doutor Bárion Gluon, para realizar uma palestra científica extraordinária,
de inclusão científica!
- Do que se trata? Algo sobre a ordenha mecânica? –
perguntou-lhe Linoberto.
- Não, nada tão prosaico e inútil, cientificamente. O Dr.
Bárion veio dar uma palestra sobre o LHC – Grande Colisor de Hádrons –
instalado entre a França e a Suíça, pela Organização Européia de Pesquisa
Nuclear.
- Sei, nos ensinará muita coisa útil para o desenvolvimento
da agricultura familiar. – ironizou Linoberto.
- Bem, talvez o tema da palestra não seja exatamente o que
vocês queriam ouvir, porém é a lei. Votaram a Lei da Inclusão Nuclear. Toda
a população do País assistirá às palestras do famoso Dr. Bárion.
- Entendi, Besta Lex, sed Lex – a lei é besta, mas é a lei.
O Estranho tomou um gole da "boa", concordando com Linoberto.
Já que era a lei, apesar de besta, Linoberto convocou a
população do Lado de Cá do Cinamomo, para assistirem à palestra do renomado
Dr. Bárion Gluon. O Padre Antão propagou a boa nova, em tese, durante a
missa das seis. O Sétimo organizou as cadeiras, para a platéia, em filas
sucessivas. As sete em ponto, o Dr. Bárion estava postado junto ao balcão do
bar, encarando aquela multidão de quinze pessoas – os doze irmãos, Padre
Antão, Dona Clotilde e Linoberto. O Dr. Bárion chegou a cogitar o
cancelamento da palestra, por falta de quórum, mas o Estranho lembrou-lhe
que era a lei.
Dr. Bárion começou a preleção falando do valor do
investimento.
- Já foram gastos oito bilhões de Euros!
O Sétimo não resistiu, e fez a primeira pergunta:
- Daria para comprar um trator novo, para a Prefeitura, com
esse dinheiro?
- Daria para comprar mais de quarenta milhões de tratores! –
divertiu-se o sábio doutor.
Satisfeito, com o silêncio gerado entre aquela multidão, Dr.
Bárion continuou:
O Colisor de Hádrons tem extensão de 27 quilômetros, e está
enterrado a cem metros, abaixo do solo! – ele parecia extasiado com as caras
boquiabertas, em meio à platéia. O Sétimo moveu-se ruidosamente, sobre a
cadeira. E não se conteve:
- Espera aí! Que porcaria é essa de rádron?
- Hádrons, senhor! – o doutor pareceu ofendido – Hádrons, por
definição, são partículas que interagem fortemente com outros hádrons!
A esclarecedora explicação fez o queixo do Sétimo cair, mas
ele não se deixou vencer tão facilmente:
- E que porcaria de colisor é essa? – ele tomou outro gole da
"boa", de sopetão.
- Colisor, senhor, é um acelerador de partículas que faz
hádrons colidirem, em altíssima velocidade, liberando enormes quantidades de
energia, gerando, inclusive, eventuais partículas que beiram a
singularidade, ou seja, minúsculos buracos negros. Porém, não há o que
temer, em relação a esses buracos negros, senhor.
O Sétimo ficou lá, parado, de boca aberta, quase
representando uma singularidade bucal. Mas, não se furtou a expressar sua
opinião sincera:
- Ora, fossa negra todo mundo tem em casa! Só que a gente não
faz propaganda dela, deixando para os tatus-bola.
O Dr. Bárion fez cara de quem não entendeu. Aquela cara
urbana de quem não conhece a singularidade sanitária do grotão.
Então, Padre Antão tentou quebrar o gelo, sentindo que a
coisa iria enveredar por um caminho não tão científico.
- Doutor, qual é o propósito de tal experimento?
- Excelente pergunta, Padre! O colisor tentará observar os
Bósons de Higgs!
Padre Antão tentou parecer esperto.
- Percebo...
- Percebe, nada! – gritou o enfurecido Sétimo – Para que
serve essa porcaria, afinal? Fale como gente, homem!
Pela primeira vez, Dr. Bárion pareceu preocupado. O Sétimo
ficara realmente perturbado. Era hora de usar a linguagem do povo:
- Bem, é para tentar encontrar a origem da massa...
Ele não conseguiu terminar a frase, interrompido pela gutural
gargalhada do Sétimo. Ele sacudia-se na cadeira, dando verdadeiras
barrigadas. Lágrimas de riso escorriam pelo rosto. Ele mal conseguiu
articular a frase:
- Quiá, quiá, quiá! Gastaram mais de quarenta milhões de
tratores, cavaram 27 quilômetros de fossas, de cem metros de fundura, para
descobrirem o que todo mundo aqui sabe.
- Perdão, não entendi! – afirmou o espantado Dr. Bárion.
- Quiá, quiá, quiá! Todo mundo sabe que a massa vem da casa
da Dona Tramontini, que mora atrás do cemitério! Ela é a única gringa da
região!
O Dr. Bárion Gluon voltou para o Outro Lado do Cinamomo.
Pensava em lecionar ponto-cruz, ponto-cheio e vagonite.
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